Ceticismo, segurança e diversidade
De tempos em tempos, é preciso dar às novas gerações a oportunidade de saber de onde as ideias vieram. Para não reinventar a roda, para não repetir o que está superado, para avançar.
A partir de hoje, então, falarei de alguns autores que tiveram a cidade e seus espaços públicos como objeto de interesse. É uma seleção singela, minha. Mas espero que seja útil como ponto de partida.
Vou começar com a escritora americana Jane Jacobs (1916-2006), uma das primeiras a denunciar o efeito negativo do desenho da cidade-jardim e do movimento moderno para a urbanidade. Ela se preocupava com a vida na cidade e era uma maravilhosa contadora de histórias. De histórias urbanas, do cotidiano, das ruas. Ela amava ruas.
Seu principal livro, “Morte e Vida de Grandes Cidades”, lançado em 1961 quando morava em Nova York, é abrangente, divertido e irônico. Nele, ela ensina que a gente tem que questionar o senso comum e ver o que o comportamento das pessoas nos lugares realmente nos diz. Com isso, dá subsídios para que não se perpetuem crenças que não se verificam na prática.
Ela mostra como a cidade grande enriquece de experiências o cidadão, pelas trocas que proporciona. Ao mesmo tempo, deixa claro que não é só por ser grande que ela vai favorecer essas trocas: seu desenho e a distribuição de suas atividades são cruciais para isso.
Destaco dois fatores fundamentais para a vida pública, por ela elencados, que podem ser alcançados pelo desenho da cidade: 1) segurança, como pré-requisito para o uso das ruas pelas pessoas; e 2) diversidade, como garantia de que a cidade não será um agrupamento de comunidades homogêneas e intolerantes umas com as outras.
Quanto à segurança, diz: “uma rua movimentada consegue garantir a segurança; uma rua deserta, não”, e alia segurança à presença de desconhecidos. Nesse tópico ela menciona seu famoso conceito de “olhos para a rua”: “Os edifícios de uma rua preparada para receber estranhos e garantir a segurança tanto deles quanto dos moradores devem estar voltados para ela. Eles não podem estar com os fundos ou um lado morto para a rua e deixá-la cega”.
Quanto à diversidade, lista 4 “necessidades” que a favoreceriam:
- 1) de usos principais combinados, pois nada mais antidiversidade que uma cidade setorizada e – pior! – sem moradia bem distribuída;
2) de quadras curtas, pois elas são mais propensas à atividade de passagem (importante para um espaço público vivo), que auxilia a garantir uma quantidade razoável de estranhos (necessária para um espaço público seguro);
3) de prédios antigos, já que, segundo ela, “combinações de prédios antigos, e as consequentes combinações de custos de vida e de gostos, são essenciais para obter diversidade e estabilidade nas áreas residenciais, assim como a diversidade de empresas”;
4) de concentração, pois… né?, com pouca gente não dá para ter diversidade.
Jacobs chama de “erosão” o processo de dar cada vez mais espaço para os automóveis, o que esgarça o tecido da cidade, prejudicando as condições que favorecem a vida pública. Sugere que, para revertê-lo, seria interessante criar condições menos favoráveis a eles e torná-los cada vez menos necessários.
Finalizo com esta frase, que eu amo e é a cara dela:
“E se fracassássemos em deter a erosão das cidades pelos automóveis? E se não conseguíssemos construir cidades vivas e viáveis porque as ações necessárias conflitam com as ações exigidas pela erosão? (…) Nessa situação, nós, norte-americanos, nem precisaríamos refletir sobre um mistério que aflige o homem há milênios: Qual é o sentido da vida? Para nós, a resposta será clara, definida e para todos os efeitos indiscutível: O sentido da vida é produzir e consumir automóveis”.
Jane Jacobs, senhoras e senhores. Apenas leiam, e depois me contem.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.