“Você provavelmente está apenas tendo uma crise de meia-idade. Já comprou um Porsche?”, Charlotte pergunta a Bob na primeira conversa entre eles no filme Lost in Translation.
“Sabe, eu estava pensando em comprar um Porsche”, Bob responde ironicamente enquanto bebe seu whisky Suntory no balcão daquele hipnótico bar no último andar do Park Hyatt Tokyo.
Lembrei dessa cena não apenas porque sou apaixonado pelo filme. Nem porque estou tendo uma crise de meia-idade (será?) e pensando em comprar um Porsche (com certeza não!).
Lembrei da cena, na verdade, porque entrei no site de um jornal logo na segunda-feira pela manhã e me deparei, mais uma vez, com a notícia de um grave acidente em São Paulo envolvendo um Porsche.
Desconheço as estatísticas, mas as recorrentes manchetes de jornal me dão a impressão de existir alguma correlação entre graves acidentes de trânsito e Porsches. Será possível? Pensando melhor, acho que não.
Vai ver, na verdade, a culpa é da mídia, que só dá destaque à marca do carro em uma tragédia automobilística quando se trata de um Porsche. “Fiat Uno capota no Túnel Ayrton Senna”, sugere o jornalista. “Fiat Uno? Está louco? Só coloca marca de carro na manchete se for Porsche, pô”, responde o editor, alterando o texto para “Carro capota no Túnel Ayrton Senna”. Será? Pouco provável também.
Outra hipótese que aventei aqui é a existência de alguma correlação entre crise de meia-idade e acidentes de trânsito. Homens brancos, ricos, héteros, na casa dos 40 ou 50 anos, como o Bob Harris de Lost in Translation, teriam uma propensão maior a comprar Porsches e a dirigir embriagados de forma imprudente.
Uma rápida olhada no noticiário, porém, parece desmentir essa hipótese, já que muitos (talvez a maioria) dos motoristas deslumbrados envolvidos nesses acidentes são mais jovens. E é pouco provável também que o whisky japonês da marca Suntory (“for relaxing times”) seja a causa da embriaguez desses motoristas irresponsáveis.
Seja como for, preocupada com danos à imagem da marca, a própria Porsche se manifestou recentemente, alegando que as quase 40 mil mortes por ano em acidentes de trânsito no Brasil são “um problema estrutural e multifatorial, que envolve comportamento individual, fiscalização, infraestrutura e políticas públicas” e que “nesse contexto, é importante que o debate público seja conduzido com base em dados e critérios de proporcionalidade”.
Estão corretíssimos. E faz todo sentido tentar proteger a marca de eventuais correlações espúrias entre seus automóveis e a probabilidade de acidentes fatais. Não somente por causa da sempre desejável defesa dos métodos científicos de análise dos dados, mas porque a marca é um dos ativos mais valiosos desses carros esportivos – ativos tão valiosos que hoje dão nome até a edifícios de alto padrão.
Sim, Aston Martin, Bentley, Bugatti e Mercedes-Benz, por exemplo, já estão por trás do design de novos prédios de luxo pelo mundo. Em São Paulo (atualmente entre as cinco cidades com mais branded residences), o estúdio Pininfarina, que desenha Ferraris, assinou empreendimentos de altíssimo padrão em bairros muito valorizados como Vila Olímpia, Itaim Bibi e Jardins.
E a Porsche? Ora, é claro que a fabricante alemã não ficaria de fora desse novo filão e também se aproveitaria de sua valiosa marca e design inconfundível para surfar nessa tendência imobiliária.
A Porsche Design Tower, a “torre” mais famosa da marca (que também assina prédio em São Paulo, é claro), não fica na Alemanha, mas em Miami, e um dos principais destaques do luxuoso edifício é seu “Dezervator”, um elevador de carros que leva o veículo do morador para dentro do seu próprio andar.
O que eu acho desses prédios com nome de carro? Gosto não se discute, é o que dizem, a despeito da tragédia arquitetônica, ambiental e urbanística que eles costumam representar (“carros e arquitetura” me parece uma combinação tão ou mais perigosa que “bebida e direção”, costuma brincar um amigo arquiteto).
Nem é isso, porém, o que mais me incomoda nesses prédios. Lembrando aqui novamente a cena de Lost in Translation, fico imaginando que, estivessem Charlotte e Bob num bar no alto da Porsche Tower, o delicado drama vencedor do Oscar correria sério risco de se transformar em comédia pastelão das mais vulgares.
“25 anos [de casados]. Isso é… bem, é impressionante”, diz Charlotte ainda naquela primeira conversa entre eles.
“Bom, se você calcular que dorme um terço da sua vida, isso elimina oito anos de casamento logo de cara. Então você cai para uns 16 anos e pouco. Sabe, você é apenas um adolescente no casamento. Você já pode dirigir, mas ainda acontecem uns acidentes ocasionais”, analisa Bob.
“Espero que dê tudo certo com o seu Porsche”, Charlotte brinca por fim, após uma troca de comentários sobre sua formação.
Um Porsche com seus 700 cavalos de potência, dirigido por um jovem ricaço embriagado de 16 anos, invadiria então o andar errado e romperia a atmosfera intimista do filme, a linda cena de cinema dando lugar à quase sempre deprimente tragicomédia da vida real.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.