Inteligência artificial, ferramentas paramétricas e o futuro do planejamento urbano

27 de fevereiro de 2026

O desenvolvimento tecnológico sempre acompanhou a evolução da arquitetura e do planejamento urbano, ampliando capacidades técnicas, acelerando processos e expandindo o campo das possibilidades projetuais. No entanto, técnica não é sinônimo de criatividade. A cidade nasce da experiência humana, da memória coletiva e da imaginação social. Instrumentos ampliam o alcance do projeto, mas não definem o sentido das escolhas. A decisão permanece um ato crítico, cultural e ético.

Nesse cenário, a parametria assume papel central como possibilidade de estrutura organizadora do planejamento contemporâneo. Modelos paramétricos não apenas automatizam tarefas, mas estabelecem relações interdependentes entre variáveis urbanas como coeficiente de aproveitamento, densidade, gabarito, taxa de permeabilidade, mobilidade e distribuição de usos. Ao operar por sistemas associativos, permitem que a alteração de um parâmetro repercuta em todo o conjunto, revelando impactos espaciais, ambientais e econômicos de forma imediata. Mais do que gerar formas, a parametria estrutura raciocínios, transforma hipóteses em simulações verificáveis e amplia a capacidade de testar cenários antes de sua materialização.

Integrada a simulações ambientais, essa lógica possibilita avaliar drenagem, insolação, ventilação, sombreamento e movimentação de terra, organizando dados complexos em sistemas dinâmicos. Ainda assim, por mais refinado que seja o modelo, a cidade não se reduz à lógica da otimização. Indicadores podem apontar melhor desempenho em caminhabilidade, ocupação do solo ou eficiência ambiental, mas não capturam integralmente as camadas simbólicas e sociais do território.

Intervenções simples muitas vezes produzem efeitos urbanos mais consistentes do que propostas excessivamente complexas. A realidade econômica e fundiária impõe limites que nem sempre coincidem com o interesse coletivo. Nesse contexto, sistemas paramétricos e inteligência artificial tornam-se aliados estratégicos ao gerarem múltiplas alternativas em curto espaço de tempo, explicitando vantagens, restrições e conflitos entre diferentes objetivos.

Quando associada à inteligência artificial, a parametria incorpora uma dimensão preditiva. Sistemas de inteligência artificial operam sobre grandes volumes de dados urbanos, identificando padrões de mobilidade, densidade e comportamento e projetando cenários prováveis a partir dessas recorrências. Sua contribuição reside na capacidade de antecipar tendências e revelar correlações que dificilmente seriam percebidas de forma isolada. Trata-se de uma ampliação analítica da decisão, não de sua substituição.

O urbanismo contemporâneo, ao buscar cidades mais resilientes e integradas, exige compreender o território como sistema social e ambiental articulado. Essa compreensão depende da capacidade humana de relacionar clima, mobilidade, cultura e uso cotidiano em uma síntese coerente. Nenhuma simulação substitui a experiência concreta do espaço, a escuta da comunidade e a percepção das dinâmicas invisíveis aos dados.

Prever, contudo, não é imaginar. Sistemas computacionais operam sobre recorrências e probabilidades, enquanto a cidade também se constrói por desvios, apropriações inesperadas e invenções que escapam às métricas. Como sugere Italo Calvino em “As Cidades Invisíveis”, as cidades são narrativas moldadas pela memória e pela imaginação. A tecnologia amplia o horizonte do possível; é a sensibilidade humana que lhe confere forma, direção e significado.

Texto de autoria dos arquitetos Arthur Cordeiro e Fernando Fedalto, urbanistas no IJL.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Com base na experiência de Jaime Lerner e das equipes que com ele trabalharam, o Instituto Jaime Lerner almeja despertar uma consciência positiva sobre o potencial transformador das cidades e seu desenvolvimento sustentável, inclusivo e criativo. ([email protected])
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