Este é um raciocínio não científico, típico, algo como uma “tempestade de ideias leigas”. E, para que o raciocínio pareça um pouco mais sofisticado e bem embasado, vou dificultar um pouco a leitura, usando os números por extenso. Todas as situações serão típicas e aproximadas. Não sei se vai funcionar, mas posso tentar.
Vamos lá:
Um típico trabalhador da indústria da construção de Belo Horizonte mora, tipicamente, em algum outro município da região metropolitana. A não ser que tenha seu próprio carro ou motocicleta, serão — tipicamente — duas horas de viagem de ida e outras duas de volta, totalizando 4 horas ou mais para uma carga de trabalho típica de oito horas diárias. Serão, tipicamente, vinte reais diários em passagens, mais o valor subsidiado pelo sistema público de transporte.
Um típico trabalhador da indústria da construção de Belo Horizonte ganha, típica e aproximadamente, dez reais por hora trabalhada (mas custa, tipicamente, o dobro para seu empregador). Poderíamos dizer que as horas não trabalhadas, em viagens, custam — tipicamente — quarenta reais diretos (ou o dobro, oitenta, para seu empregador), a cada dia.
Podemos imaginar que, enquanto um trabalhador típico leva para casa menos de dois mil reais por aproximadamente duzentas horas de trabalho a cada mês, o “sistema” engole aproximadamente outras cem horas mensais e, típica e aproximadamente, outros três mil e quinhentos reais em horas improdutivas e custos “sociais” sobre o esforço alheio (além do que o próprio trabalhador leva para casa, tipicamente).
Um imóvel da faixa um do programa MCMV (Minha Casa, Minha Vida) tem um valor — típico — de cento e setenta mil reais (subsidiado), permitindo extrapolar que um trabalhador típico da construção civil poderia, apenas com os valores que o sistema “engole” mensalmente, liquidar esse valor em menos de quarenta e nove meses, tipicamente. Num financiamento típico, talvez o prazo se estenda a cento e vinte meses, considerando a taxa de juros. Ainda assim, três vezes menor do que um financiamento típico de trinta anos.
Três vezes menor e sem tirar um centavo do bolso do trabalhador.
Os mais afoitos dirão que “o sistema precisa continuar engolindo dinheiro e improdutividade porque o trabalhador típico continuará morando ridiculamente longe”, ao que responderei, todo serelepe: há apartamentos de um quarto no majestoso Edifício JK (Praça Raul Soares, Centro de Belo Horizonte) a venda por cento e cinquenta mil reais, e apartamentos de dois quartos por um pouco mais (aproximadamente duzentos mil reais).
Os afoitos, agora um pouco mais irritados, dirão que “são casos isolados, e em pequena quantidade, insuficientes para solucionar o gap estrutural de deficit de moradias na região metropolitana de Belo Horizonte”, ao que, pacientemente, responderei: sim, mas é um indicativo de que áreas urbanas centrais, quando adequada e suficientemente adensadas, podem gerar apartamentos — tipicamente — com custo compatível com o MCMV, ao mesmo tempo em que permitem que se more nas áreas mais centrais e próximas da oferta de trabalho, muitas vezes a uma distância típica de quinze minutos ou menos (distância na qual, muitas vezes, sequer é necessário o uso do transporte público, e menos ainda o de um veículo próprio).
Uma pesquisa de trinta segundos no site Quinto Andar, especificando apartamentos em Belo Horizonte com preços entre cento e cinquenta e duzentos e sessenta mil reais retornaram, pasmem, um mil, setecentos e noventa e sete resultados com unidades de um, dois e três quartos, todos disponíveis, abertos à negociação, prontinhos para morar.
Dentre os mil, setecentos e noventa e sete resultados, há apartamentos em bairros um pouco mais distantes do Centro, e em prédios pequeninos, de quatro pavimentos. Fossem prédios de doze, quinze pavimentos, talvez tivessem um valor ainda melhor, contribuindo para a vitalidade do bairro com mais consumidores, viabilizando mais comércio, mais serviços e ainda mais oferta de trabalho no próprio bairro, tipicamente.
A lógica é que a distância excessiva implica numa superposição de problemas que, ao fim e ao cabo, só fazem consumir recursos importantes, agredir a produtividade e eliminar a oportunidade de uma vida plena por quem vive isolado em ilhas de miséria cultural, educacional e institucional.
Morar a duas horas de onde a sociedade se educa, de onde se adquire conhecimento e cultura, e de onde a inovação acontece equivalem a uma sentença — quase perpétua — a uma cidadania de segunda classe, desidratada.
Imagine a rotina típica de uma pessoa que, num dia típico, trabalhe durante o dia, mas que possa se exercitar, estudar, ir ao cinema, a um museu ou ao teatro no final da tarde ou à noite; que possa caminhar a uma praça ou a um parque, interagir e participar dos eventos culturais e de lazer que acontecem, essencialmente, nas áreas centrais de Belo Horizonte.
Agora compare com as possibilidades e oportunidades típicas que um morador de um conjunto habitacional que vive a duas horas e dois ônibus das áreas centrais, e calcule o tempo disponível para atividades esportivas, de lazer e culturais durante a semana?
Qual é a chance típica de uma pessoa que mora a duas horas e dois ônibus das áreas centrais termine a graduação? E que faça, tipicamente, algum curso de extensão ou uma pós-graduação? Que amplie a sua rede de contatos para além dos vizinhos de bairro e colegas de trabalho?
Calcule o custo financeiro e o tempo necessário para que uma família de quatro pessoas venha participar, tipicamente, dos eventos culturais e de lazer que acontecem, essencialmente, nas áreas centrais de Belo Horizonte, nos finais de semana.
Não sobra tempo e não sobra energia.
Com isso, não sobram muitas oportunidades para romper um ciclo perverso que, tipicamente, atua para que as pessoas não tenham uma vida melhor.
Esse é o ciclo iniciado — e potencializado — pela decisão de limitar a quantidade de pessoas que podem morar nas zonas centrais (e nas demais zonas do município de Belo Horizonte), tipicamente.
Essa é a raiz de uma das produtividades mais baixas do planeta, que encarece sem dó e em cascata todo e qualquer produto, transação e prestação de serviço no país. Em última instância, pesam sobre a chance de melhoria de remuneração para os próprios trabalhadores.
A distância excessiva e o tempo de deslocamento entre o local de moradia e as zonas centrais (onde estão as ofertas de trabalho) marcam, tipicamente, a realidade de todas as regiões metropolitanas brasileiras e, de certa forma, autoriza que o “sistema” sequestre a riqueza, a produtividade e a energia das pessoas, em nome dos investimentos necessários para infraestrutura e transporte público.
A lógica parece ser a antilógica: gastar recursos que não se tem, para resolver um problema que não existia.
Sendo um jogo de soma zero (já que governo algum produz nada, e gera riqueza alguma), os recursos monstruosos que o “sistema” sequestra e entrega em forma de obras públicas e transporte público é, exata e tipicamente, a riqueza que é distribuída em forma de ganho de renda para os trabalhadores nos países mais desenvolvidos e conscientes.
Quanto mais perto das zonas centrais mora a população, maior o nível educacional, maior o desenvolvimento pessoal e maior a produtividade. Menos espalhamento, mais recursos para educação, saúde e cultura. Tudo isso junto, mais renda, mais interação, mais inovação e maior senso de comunidade. Tudo junto e misturado, mais segurança e mais felicidade, tipicamente.
Tipicamente.
#FicaADica
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.