Habitabilidade urbana como instrumento para pensar cidades

29 de maio de 2026

O avanço da crise climática tem evidenciado uma limitação recorrente do planejamento urbano contemporâneo: temas tradicionais como mobilidade, infraestrutura, meio ambiente, saúde pública e desenvolvimento urbano ainda são frequentemente tratados de forma fragmentada, apesar de seus efeitos profundamente interdependentes no território. Essa condição torna-se particularmente sensível em cidades onde limitações técnicas, institucionais e financeiras restringem a capacidade de resposta a vulnerabilidades urbanas crescentes. 

Como, então, reunir e categorizar informações que sejam úteis e praticamente aplicáveis especialmente para essas situações? 

Foi nesse contexto que iniciei, durante meu período de pesquisa na University of Oxford, o desenvolvimento do FORMA — Framework for Operational Resilient and Multi-dimensional Assessment, um instrumento para articular, em uma mesma arquitetura analítica, dimensões que permitem compreender a habitabilidade urbana para além de leituras setoriais. O pressuposto central é que os processos urbanos não operam isoladamente e que a forma urbana é um componente fundamental para a tomada de decisões. 

Como resultado de estudos de mais de 400 indicadores globais e de experiências junto da Space Syntax, UCL, Oxford Brookes, e a Urban Analytics Lab, estruturamos quatro dimensões integradas em um fluxo metodológico de captação de dados, análise e avaliação:

  • • Geoforma: o sítio natural como primeiro nível de compreensão da cidade em um contexto de crise climática;
  • • Socioforma: a configuração urbana como base orientativa para moradia, deslocamento e acesso à cidade;
  • • Forma de Gestão: revela como legislações e governos estão tratando a crise climática (com seriedade ou não);
  • • Forma de Participação: denota se as comunidades estão realmente engajadas em novas práticas frente às mudanças do clima.
Fluxo metodológico do FORMA. Fonte: Karol Carminatti Baumgärtner

Atualmente, o modelo reúne 116 indicadores em contínuo aprimoramento metodológico. As primeiras aplicações em cidades catarinenses revelaram um aspecto significativo: mais do que limitações estritamente ambientais, os principais entraves à resiliência urbana concentram-se nas dimensões institucionais e participativas, evidenciando que adaptação climática depende também da capacidade coletiva de planejar, governar e transformar o território.

Grupos temáticos da análise. Fonte: Karol Carminatti Baumgärtner

O que aprendemos até aqui é que a crise climática é um exercício de escuta do lugar que habitamos. A adaptação das cidades depende do modo como compreendemos e articulamos território, governança, infraestrutura, participação social e meio ambiente em uma mesma lógica de planejamento. Talvez o desafio do nosso tempo seja justamente perguntar mais ao território e depender menos de respostas padronizadas.

Karol Carminatti Baumgärtner – Doutor em Arquitetura e Urbanismo e pesquisador do Centro Global de Saúde e Urbanização da Universidade de Oxford.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Com base na experiência de Jaime Lerner e das equipes que com ele trabalharam, o Instituto Jaime Lerner almeja despertar uma consciência positiva sobre o potencial transformador das cidades e seu desenvolvimento sustentável, inclusivo e criativo. ([email protected])
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