Fragmentos de São Paulo

3 de novembro de 2026

Na tentativa de decifrar São Paulo, tenho o hábito de colecionar fragmentos de romances, contos e crônicas que falam da cidade. Recentemente, por exemplo, me deparei com uma reflexão interessante a respeito da busca de identidade dos países sul-americanos no romance “Seul, São Paulo”, do boliviano Gabriel Mamani Magne.

“A Argentina é uma tentativa fracassada de Europa, o Brasil é uma tentativa fracassada de Estados Unidos”, diz o narrador. Eu discordo. Pois ao menos São Paulo, onde se passa a maior parte do romance, não tentou ser apenas Estados Unidos (Nova York, em particular), mas também já quis ser Europa, quando era a Europa que estava na moda, antes da ascensão política, econômica e cultural dos EUA.

E São Paulo já quis até ser Brasil mesmo, num breve período em que o país perseguia uma identidade própria e sua arquitetura modernista apresentava traços de ousadia e originalidade.

Caminhar pelo Centro é a oportunidade de identificar, entre uma infinidade de concreto, pichações e ruínas, os resquícios dessas tão diferentes aspirações.  Enquanto o Teatro Municipal, construído no início do século 20, foi inspirado na Ópera de Paris, por exemplo, o Edifício Altino Arantes (Farol Santander), da metade do século, foi buscar inspiração no Empire State Buillding de Nova York.

Edifícios como Itália (Franz Heep), Copan e Eiffel (Niemeyer), por sua vez, são exemplos do que melhor se produziu por aqui – e não por acaso, ao lado de outros prédios como o do Masp (Lina Bo Bardi), são até hoje alguns dos mais simbólicos e representativos da cidade.

Essas diferentes aspirações, somadas ao crescimento vertiginoso da capital no século 20, a mudanças bruscas nas regulamentações e alternância de ciclos econômicos, fizeram da cidade uma verdadeira colcha de retalhos, conforme descreve o narrador de “Vida ao vivo”, de Ivan Angelo, outro romance que li recentemente. “Vista do alto, a cidade se estende sobre o planalto como uma colcha de retalhos costurados, esfiapados nas beiradas, quatrocentos e sessenta e sete anos costurando-se, sem desenho. Vista de baixo, selva de pedra. É um clichê, mas não é impróprio”. 

Hoje São Paulo aparentemente não quer ser nada, ou talvez deseje ser Dubai, com suas torres cada vez mais altas, ou apenas esse amontoado de versões mais genéricas, desconexas, tristes e empobrecidas de tudo isso que tenta ou já tentou ser.

Um dos poucos consensos que parecem ter se consolidado no imaginário coletivo está na ideia de que essa cidade é um lugar para se ganhar dinheiro, e de que ganhar dinheiro implica necessariamente abrir mão de tempo livre e lazer, ou mesmo sofrer (a não ser, é claro, que você tenha muito dinheiro).

“São Paulo é um bloco colossal de cimento que nada tem a ver com a ideia praiana de Brasil vendida pela mídia. Homens de terno e mulheres de rosto comprido. Olheiras sobre peles brancas. Olheiras sobre peles café com leite. E tudo nas pessoas parece dizer: trabalho trabalho trabalho”, descreve o narrador de “Seul, São Paulo”.

“As cidades vão inventando seus moradores, vão criando um estilo. Reparem no jeito da paulistana ou do paulistano de caminhar na rua: o passo é firme, decidido, eles não gingam o corpo em balanceio de quem se dá tempo, não perambulam sem destino, não seguem a esmo nem andam torto. Todo mundo sabe aonde vai, e vai indo. […] O visitante é um turista desocupado, não tem paisagem para ver nem resorts para lagartear, o que tem é onde comer bem, se puder pagar. Tem bons museus, mas não é cidade museu, como as de Minas, não guardou raridades barrocas, era pobre, nunca teve essas joias. […] Os lindos casarões que esta cidade teve quando ficou rica de tanto vender café ela botou abaixo para trocar por luxos mais modernos. […] Nada nesta cidade é natureza. Até os rios foram arrumados ou metidos à força debaixo do asfalto. […] A paisagem não é metade natureza, como a do Rio […]; aqui, o que a vista alcança é paisagem criada”, reflete o narrador de “Vida ao vivo”.

Uma paisagem criada que talvez seja única não por ter encontrado uma identidade própria, mas exatamente pela absoluta falta de uma identidade clara. “Esta não é uma cidade para se conhecer. Não se pode dizer: eu conheço São Paulo. Ninguém conhece. Nem dizer: São Paulo é assim – porque não é. Você sabe de partes, não tem ideia do todo”, conclui o narrador de “Vida ao vivo”.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Economista pela FEA-USP, mestre em economia pela EESP-FGV e tem mais de 20 anos de experiência na área de pesquisas e estudos econômicos. Mora em São Paulo e caminhar pela cidade é um de seus hobbies favoritos ([email protected]).
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