Favela e potência: narrativa exagerada ou uma história para contar?

20 de fevereiro de 2026

Cada vez mais, o termo “narrativa” vem ocupando um lugar de destaque nas análises políticas. Nesse campo, a palavra e a ideia por trás têm sido vinculadas à repercussão de fatos selecionados e à indução a certas interpretações para manipular ou enganar um grupo amplo de pessoas. Quem controla as narrativas tem, em tese, maior peso sobre os eleitores e influência sobre as políticas públicas.

Analisemos a maneira como muitos escolhem se referir às favelas. Elas são potência, afirmam empreendedores sociais de destaque que nasceram e cresceram nesses territórios. Órgãos governamentais também parecem adotar mais a palavra em canais oficiais nas redes sociais. O Ministério das Cidades, por exemplo, reconheceu em postagem no último Dia da Favela que esse território é resistência e… potência.

Recentemente, o Instituto Data Favela divulgou a pesquisa Sonho das Favelas 2026. Um dado que chama a atenção é que 50% dos entrevistados creem “plenamente” que alcançarão seus objetivos de ascensão e prosperidade. Há números menos animadores, mas, para a construção da suposta narrativa de que favela é potência, esse já poderia bastar.

As falas de empreendedores de sucesso, os posts do poder público e o otimismo dos moradores de favelas ajudam a confirmar essa hipótese? Haveria aí exagero ou manipulação da realidade? A visão propagada direciona as políticas públicas de alguma forma ou favorece algum grupo?

Antes de respondermos, vale nos lembrarmos de que, para muitos, favela ainda é sinônimo do oposto. Pobreza, violência, malandragem, dentre outros tantos conceitos pejorativos já utilizados na história das cidades brasileiras. Não à toa, esses territórios também são chamados de assentamentos precários na literatura técnica.

As favelas têm, de fato, casas precárias, problemas de acesso a serviços públicos e famílias que ganham pouco. Há, também, o problema do controle de facções criminosas e milícias. Mas essas características estão longe de contar a história completa.

A visão que generaliza os estigmas também gera traumas e injustiças. Por outro lado, a propagação da mensagem de potência combate preconceitos. O lançamento da ideia por si só não resolve as questões que pairam, mas tenta compensar uma narrativa histórica de depreciação.

Do ponto de vista das políticas públicas, gestores e pesquisadores devem olhar para todos os dados, inclusive para os indicadores que retratam realidades duras. Uma vez munidos de informação, por mais que ela possa doer, teremos mais meios para concebermos programas e projetos territorializados – como os de urbanização e de melhorias habitacionais via assistência técnica gratuita.

Reconhecer a potência das favelas pode acabar por romantizá-las, mas, para além disso, revela um lado que precisa ser visto. Quem se beneficia? Os próprios moradores, à medida que lhes é permitido se inserirem em um imaginário menos estigmatizado.

Nesse sentido, não vejo a associação entre favela e potência como uma narrativa que deturpa e engana. Enxergo uma narrativa cujo sentido no dicionário é contar histórias. De pessoas normalmente invisibilizadas e discriminadas e que têm muitas outras faces.

Além da transformação na imagem, é preciso ação. Políticas públicas, investimentos de empreendimentos sociais, pesquisas aplicadas e mobilizações do amplo espectro da sociedade civil caem bem. O caminho é complexo, afinal.

E você? Como vê a favela?

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Doutor em Planejamento Urbano e Regional pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Arquiteto e urbanista formado na FAUUSP, cursou o mestrado em Planejamento Urbano pela Universidade de Columbia (EUA). Lá, ganhou o prêmio Charles Abrams pela dissertação com o maior comprometimento com justiça social. Também trabalhou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo entre 2014 e 2016, com atuação na urbanização de sete favelas das zonas Sul e Oeste da cidade.
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