Quem vive no Rio de Janeiro parece desenvolver uma relação curiosa com a cidade. Reclamamos do trânsito, da segurança, da conservação dos espaços públicos, da desordem urbana, da qualidade dos serviços. Motivos para críticas não faltam e certamente continuarei tratando deles. Mas, desta vez, resolvi fazer uma pequena pausa.
De tanto olharmos para os problemas, talvez tenhamos deixado de perceber aquilo que está diante dos nossos olhos todos os dias: o Rio de Janeiro continua tendo uma das paisagens urbanas mais bonitas entre as grandes cidades brasileiras.
E não me refiro apenas à paisagem natural. É evidente que poucas cidades tiveram a sorte de nascer entre o mar e a montanha, cercadas por praias, florestas, lagoas, morros e uma baía que cria perspectivas surpreendentes em diferentes pontos da cidade. Pão de Açúcar, Corcovado, Floresta da Tijuca, Lagoa Rodrigo de Freitas e Baía de Guanabara formam um patrimônio paisagístico que aprendemos a reconhecer como símbolos do Rio.
Mas existe outro Rio que, por ser cotidiano, talvez seja menos percebido: aquele construído ao longo de mais de quatro séculos. A cidade também é formada por suas calçadas, praças e parques, pelos edifícios que emolduram as montanhas e pelas perspectivas que surgem inesperadamente quando dobramos uma esquina. No Rio, natureza e cidade não são elementos independentes. A geografia condicionou a forma da cidade e, ao mesmo tempo, a cidade construída passou a fazer parte dessa paisagem.
Talvez esteja justamente aí um dos nossos maiores ativos e, paradoxalmente, um dos menos explorados.
A qualidade do espaço urbano tem valor. Não apenas afetivo ou estético, mas também econômico. Uma cidade agradável para caminhar, permanecer, encontrar pessoas e contemplar sua paisagem atrai turistas, moradores, investimentos, restaurantes, comércio, cultura e atividades econômicas em geral. A qualidade urbana também é capaz de gerar valor.
Muitas vezes o visitante percebe isso antes de nós. Ele caminha pela orla, senta em um quiosque, observa a cidade de um mirante e experimenta algo que não cabe facilmente nos índices utilizados para medir seu desempenho. Nós, que convivemos diariamente com essa paisagem, acabamos por naturalizá-la. Aquilo que para quem chega é extraordinário, para quem vive aqui corre o risco de se tornar apenas cotidiano.
Precisamos compreender melhor que cuidar da paisagem não significa apenas preservar montanhas, praias ou edifícios históricos. Significa também cuidar daquilo que acontece entre os edifícios: das ruas, das calçadas, das praças, da arborização, das fachadas e, sobretudo, da relação entre o espaço público e o espaço privado. A paisagem é também resultado das pequenas decisões que tomamos diariamente sobre a cidade.
E talvez esteja aí uma questão que mereça mais atenção: se essa combinação entre natureza e cidade é um dos principais diferenciais do Rio, por que ainda a tratamos tão pouco como um ativo estratégico? Preservar e qualificar essa paisagem não deveria ser apenas uma preocupação ambiental ou estética, mas também uma política de desenvolvimento urbano.
O Rio tem muitos problemas ligados ao urbanismo e seria ingenuidade ignorá-los. Mas reconhecer suas qualidades não significa deixar de criticá-lo. Pelo contrário. Talvez seja justamente porque temos algo tão extraordinário que deveríamos ser ainda mais cuidadosos com aquilo que construímos, transformamos ou destruímos.
De qualquer forma, não se preocupem. Este breve momento de otimismo termina aqui. Na próxima coluna prometo voltar às críticas.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.