Envelheço na cidade

28 de abril de 2023

Andar a pé no Brasil poderia ser apenas um agradável exercício de autonomia para um idoso. Não é.

“Morte lenta ao luso infame que inventou a calçada portuguesa. Quadrados de pedregulho irregular socados à mão. À mão! É claro que ia soltar, ninguém reparou que ia soltar? Branco, preto, branco, preto, as ondas do mar de Copacabana. De que me servem as ondas do mar de Copacabana? Me deem chão liso, sem protuberâncias calcárias. (…) Depois dos setenta a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos.”

O brilhante livro Fim, de Fernanda Torres, começa com a descrição de um caminho a pé feito por um idoso, do consultório de seu clínico geral até sua casa, no Rio de Janeiro. Álvaro, de 84 anos, interrompe várias vezes a conversa que trava consigo mesmo para reconhecer as dificuldades de seu trajeto: “Opa! Fezes caninas”; “Olha a bicicleta!”; “Desvio de obra. Como gostam de obra”; “Esse sinal demora uma eternidade para abrir e dois segundos para fechar.”

Há tempos, uma amiga me contou que, num encontro familiar, ficaram sabendo que o tio tal, idoso, tinha caído em pleno Setor Comercial Sul. Com certeza, havia tropeçado nas calçadas problemáticas, mas… os familiares, ao invés de ficarem indignados com as condições que a cidade impõe aos seus pedestres, foram brigar com o tio! Como era possível que ele tivesse ido sozinho ao Setor Comercial Sul? Naquele momento, a queda pareceu-lhes quase como um resultado inevitável da imprudência do idoso: andar sozinho pela cidade.

Não lhes ocorreu que um espaço público deve permitir que possamos ir, vir e estar sozinhos, exercendo nossa autonomia.

Em 1992, me deparei pela primeira vez com uma senhora com andador, numa cidade no interior da Suécia. Ela estava voltando do supermercado, devagarinho, com as compras naquela cestinha que alguns andadores têm (acabei de descobrir no Google que o andador moderno foi inventado pela sueca Aina Wifalk, na década de 70. Ela nem chegou a ser idosa — faleceu aos 55 anos — mas, como tinha pólio, preocupou-se em inventar algo para as pessoas com deficiência).

A primeira coisa que pensei foi: Gente! Cadê a família dessa mulher, que não está aqui para ajudá-la a fazer compras? Como é que a deixam sair sozinha!

Na época, eu não imaginei que aquela senhora pudesse querer estar ali, andando pela cidade no seu ritmo, passeando, vendo gente, fazendo suas próprias compras, sem precisar do favor de ninguém. Que o andador e as calçadas perfeitas daquela cidade sueca a livravam de mofar dentro de casa, esperando que alguém tivesse um tempo para levá-la ao mercado, ou esperando que alguém trouxesse suas compras, com grandes chances de trazer a marca de pó de café de que ela não gosta!

Muitos idosos dão completamente conta das atividades da vida diária, mas seu tempo de deslocamento é outro, e outros são seus reflexos e sua percepção. Álvaro relata isso: “Não faz muito tempo, ir da minha casa até o consultório do Mattos (…) me custava dez minutos a pé. Hoje, levo quarenta. Andar deixou de ser um ato inconsciente. Vigio os passos, os joelhos, mantenho a atenção na rota.”

A cidade deveria ajudar, mas não ajuda. E não estou falando apenas do poder público, que não cuida das calçadas ou não define um tempo semafórico adequado para travessia. Falo das decisões individuais. De moradores que tratam as calçadas nas frentes de suas casas de forma a impedir qualquer deslocamento longitudinal. De comerciantes que bloqueiam passagens. De motoristas que estacionam no passeio.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, divulgada em julho de 2022, o Brasil tem 31,23 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Isso significa 14,7% da nossa população, ou 3 pessoas a cada 20. Três pessoas a cada 20 para as quais andar a pé é um desafio, uma fonte de tensão. Muitos daqueles que eu amo estão nesse grupo: minha mãe, minhas tias, meus mestres.

Eu serei uma dessas 3 pessoas, em 8 anos. Eu me preocupo imensamente por todos nós, hoje e amanhã.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta, professora da área de urbanismo da FAU/UnB. Adora levantamento de campo, espaços públicos e ver gente na rua. Mora em Brasília. ([email protected])
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