Presença constante nos programas de disciplinas dos cursos superiores de Arquitetura e Urbanismo, nos quais é considerada uma referência obrigatória, o livro “História da cidade”, de Leonardo Benevolo, impressiona pela amplitude temporal — parte da Pré-História até a contemporaneidade —, bem como pela extraordinária didática. Essas duas características acabam por alargar seu alcance, fazendo com que a obra salte das grades curriculares e das salas de aula e passe a interessar a um público bem maior.
Ao atravessar sucessivas civilizações, o autor procura compreender como os modos de organização política, econômica, religiosa e cultural foram sendo inscritos no território. O ambiente construído torna-se, assim, um registro da própria sociedade, permitindo acompanhar sua evolução por meio das formas urbanas que produziu, e não apenas por uma sequência de acontecimentos históricos. A partir desse ponto, ruas, edifícios, infraestruturas e espaços públicos passam a ser tratados como evidências capazes de revelar as maneiras de cada civilização se organizar.
Essa interpretação é montada gradualmente no decorrer das páginas do livro. Em vez de buscar uma origem única, Benevolo destaca os processos ao longo do tempo. A formação dos assentamentos urbanos é compreendida em relação às transformações na produção, ao aperfeiçoamento das técnicas construtivas, às formas de exercício do poder e às mudanças na vida cotidiana. Isso porque o interesse do autor não está em identificar um momento fundador, mas em mostrar como essas sucessivas transformações deixam marcas permanentes. Dessa maneira, a obra acompanha a evolução das cidades à medida que revela as sociedades que lhes traçaram os contornos, esclarecendo como cada uma delas encontrou respostas próprias para o seu dia a dia.
Ao aproximar estruturas monumentais e aspectos da vida cotidiana, Benevolo chama a atenção para outra faceta fundamental da urbanização: as cidades raramente começam do zero. Elas acumulam permanências, reinterpretam soluções anteriores e incorporam novas camadas no decorrer dos séculos. Mesmo experiências que buscaram representar novos começos — Brasília, por exemplo — continuam expressando os projetos políticos, econômicos e culturais de sua época.
Essa compreensão das cidades como processos históricos acompanha também os capítulos finais. Já na década de 1970, Benevolo sublinhava a distância existente entre a cidade concebida pelas normas e aquela efetivamente edificada. Sua crítica chega também a um segmento do pensamento moderno, excessivamente concentrado nas funções urbanas e menos atento às relações que dão sentido ao espaço vivido. Passadas quase cinco décadas, essas questões seguem presentes e ajudam a explicar por que muitas cidades ainda enfrentam dificuldades para responder às transformações sociais que as produzem.
Quase 50 anos após sua publicação, “História da cidade” se mantém atual porque alarga nossa capacidade de formular perguntas sobre o presente. Se as cidades são resultado de processos históricos, também permanecem abertas às transformações de seu tempo. Ler Benevolo é compreender que nenhuma rua, infraestrutura ou espaço público existe por acaso: todos condensam escolhas, conflitos, conhecimentos e modos de organização acumulados às vezes por milênios. Tal percepção altera ainda a maneira como encaramos o futuro. As cidades que estamos construindo hoje serão, amanhã, documentos de nossa própria época, revelando às próximas gerações aquilo que decidimos preservar, transformar ou ignorar.
Heloisa Loureiro Escudeiro
Coordenadora-adjunta do Núcleo de Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.