Empreender em favelas e periferias é uma realidade que precisamos entender
24 de julho de 2026Quando se fala em empreendedorismo periférico, social ou popular, costumam se formar dois grandes blocos de opinião. Eles não são tão extremos quanto pode parecer; ainda assim, noto duas correntes que por vezes se distanciam entre si.
De um lado, há os que destacam a precariedade dos autônomos que moram em favelas e periferias e que fazem seus corres diários como pessoa jurídica (PJ) ou na informalidade – consequentemente, sem direitos trabalhistas – e em jornadas duplas. A esse grupo predominantemente crítico, pertencem acadêmicos, políticos e trabalhadores mobilizados.
Há, no outro extremo, os que defendem a garra e a força desses empreendedores, os quais passam por necessidades, sim, mas que fazem o possível e o impossível para gerarem uma renda extra ao final do mês, para sustentarem os filhos e para saírem das condições de CLT – vistas como não ideais. Muitos trabalhadores, empreendedores sociais com grande visibilidade e pesquisadores estão nesse grupo, que em muitas ocasiões destaca também a possibilidade de criação de impacto social positivo, como a geração de renda, o fortalecimento de laços comunitários, a oferta de serviços básicos etc.
Frente a essas visões por vezes conflitantes, pergunto: como o empreendedorismo vem afetando a vida nos territórios populares a partir de impressões coletadas nessas áreas?
Pesquisas que venho realizando em São Paulo têm mostrado que, em favelas e bairros originados de loteamentos populares, moradores e empreendedores – quando não moradores-empreendedores – reconhecem a fragilidade das relações de trabalho contemporâneas. Além disso, mostram que as reservas de energia para lutarem pelo sustento nessas condições estão se esgotando. Algumas das pessoas com quem falei, em geral pessoas mais velhas, citam uma certa descrença nas políticas públicas e também na capacidade de organização comunitária em meio a um cenário de ausência, ainda que não completa, do poder público.
Por exemplo: ouvi recentemente de uma liderança que havia muito individualismo na sua favela e que, quando fosse possível, ela gostaria de deixar a área. Outro líder comunitário culpou os políticos por sua incompetência ao lidarem com a favela e exaltou a necessidade de se virar dos moradores frente a um poder público incompetente, ao crime sempre presente etc. Nesse mesmo assentamento, não pude deixar de notar o aumento recente de bares, vendas e outros estabelecimentos informais. Não é possível relacionar o empreendedorismo aos processos relatados – mais pesquisas precisam ser feitas. Por ora, é razoável dizer que o tecido social nessa favela está mudando, assim como as posturas de muitos moradores.
Também vi entusiastas. Em geral mais jovens, esse grupo aponta a existência de um propósito social ao empreenderem. Ou, quando ainda não empreendem, referem-se a entidades sem fins lucrativos e a negócios de impacto como modelos nos seus territórios. Há também colaboradores desses dois tipos de organizações, que identificam oportunidades de fazerem o que o Estado não faz ou mesmo de atuar junto ao Estado. Eu vi a chegada de melhorias em um território, as quais só foram viabilizadas por conta do que venho chamando de redes de impacto social – que congregam empreendedores, associações comunitárias, agentes de secretarias e outros órgãos públicos e, como não podia deixar de ser, moradores.
Não chego ao final deste texto com uma conclusão. Mas lancei reflexões aqui com a esperança de que em breve tenhamos algumas respostas. Não me interessa fomentar posições extremas, que ou condenam veementemente o empreendedorismo em territórios populares, ou enxergam-no como a luz no fim do túnel para problemas estruturais e que, a meu ver, não prescindem da ação firme do poder público.
Por ora, afirmo: empreender é uma realidade em favelas e periferias, e não é de hoje. Precisamos, então, entender mais sobre esse fenômeno.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.