Em busca de um bom lugar para viver? Procure uma livraria de rua por perto

28 de abril de 2026

Li certa vez que a qualidade de vida em um bairro pode ser medida pela distância entre a sua casa e o café mais próximo – em uma relação inversa, é claro: quanto menor a distância, maior a qualidade de vida. Apaixonado que sou por livros, pensei que, melhor ainda do que um café, é ter uma livraria de rua perto de casa.

Isso porque, se há até uma livraria perto da sua casa – especialmente em um país que lê pouco, como o Brasil –, é bem provável que também haja escolas, mercados, padarias, farmácias, barbearias, sorveterias, bares, restaurantes e, claro, cafés. Ter tantos estabelecimentos perto de casa, por sua vez, significa poder fazer grande parte das atividades cotidianas a pé, sem precisar do automóvel – e, portanto, sem ter que encarar congestionamentos e gastos com estacionamento (sem falar nas menores emissões de poluentes).

Em um dos meus primeiros artigos no Caos Planejado, relacionei dados de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e densidade demográfica (habitantes por m²) para tentar identificar objetivamente os melhores distritos de São Paulo para se viver. O IDH, composto por indicadores que medem educação, saúde e renda da população, é uma forma bastante conhecida de se tentar medir a qualidade de vida de um lugar. É a combinação de potencial de consumo e quantidade de pessoas vivendo e frequentando determinado local, por sua vez, que viabiliza o surgimento de uma grande diversidade de estabelecimentos comerciais – e a densidade demográfica foi a variável utilizada para tentar capturar esses aspectos.

Se há uma livraria de rua por perto, porém, nem é preciso fazer muita conta ou comparar diferentes indicadores: pode apostar que, em torno dela, é muito grande a chance de IDH e densidade populacional serem elevados. Sem dizer que bairros e distritos – unidades para as quais costumam haver dados públicos disponíveis – costumam ser grandes e heterogêneos. A presença de uma livraria de rua, assim, pode ser uma medida muito mais precisa da qualidade de vida do entorno.

No mais, deixando um pouco de lado a frieza dos números, talvez não haja estabelecimento comercial mais apropriado do que uma livraria de rua para sintetizar o que a vida urbana pode oferecer de melhor. Elas são, afinal, lugares agradáveis para se passar um tempo, ver pessoas, encontrar amigos, normalmente trazem vida e movimento para as calçadas, com vitrines, cores e texturas que quebram a monotonia dos muros e das grades dos condomínios.

Especialmente para quem gosta de literatura, como eu, são verdadeiros refúgios, sempre uma oportunidade para uma breve distração ou uma boa conversa na volta do trabalho, por exemplo. Além disso, costumam promover eventos literários e lançamentos de livros. Para quem tem filhos pequenos, são também ótimos espaços para passar um tempo com as crianças, explorar com elas as obras de literatura infantil (muitas delas indicadas também para adultos) e estimular o hábito de leitura, além de poder aproveitar eventuais oficinas criativas e contações de histórias.

“São Paulo passa por uma das fases mais vibrantes e diversas de sua história livreira e já voltou a figurar entre as cidades brasileiras de vida literária pulsante. A face mais vistosa desse momento são as livrarias de rua, que voltaram a florescer e, estima-se, que já são mais de 100 espalhadas por quase toda a cidade”, escreveram recentemente Júlia Souto Guimarães Araujo e Tereza Grimaldi, proprietárias de uma livraria infantil bem perto de casa à qual costumo ir sempre com meus filhos.

Em busca de um imóvel em São Paulo, de um bom lugar para viver na cidade? Esqueça, em um primeiro momento, o site das imobiliárias; esqueça também as estatísticas dos bairros e dê uma olhada no recentemente lançado Mapa das Livrarias de Rua de São Paulo. Visite, então, algumas delas, aproveite para passear pelo entorno, ir a um restaurante ou bar por ali, tomar um café ou um sorvete. Vai que, de repente, você não acaba dando de cara com a placa de “vende-se” ou “aluga-se” do imóvel que será o seu futuro lar.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Economista pela FEA-USP, mestre em economia pela EESP-FGV e tem mais de 20 anos de experiência na área de pesquisas e estudos econômicos. Mora em São Paulo e caminhar pela cidade é um de seus hobbies favoritos ([email protected]).
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