Donas de casa e das contas: quem paga a moradia no Brasil?

24 de junho de 2026

Nos últimos anos, o descolamento entre rendas e custos habitacionais vem crescendo e ganhando importância no debate público ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, a crise habitacional hoje já é mais grave do que antes de 2008, tornando-se fator determinante nas últimas eleições. Na Europa, a Comissão Europeia criou em 2024 um cargo inédito dedicado ao tema habitacional. Em Cingapura, o preço da moradia esteve entre as principais preocupações dos eleitores em 2025.

Esse problema tem nome: “housing affordability”, ou acessibilidade à moradia. Refere-se à capacidade de uma família acessar moradia sem comprometer a renda de forma insustentável. Para além do acesso ao aluguel ou financiamento, engloba também os custos correntes da vida dentro de casa: contas de serviços, taxas condominiais, impostos, manutenção, etc.

No Brasil, o fenômeno ganha contornos próprios, marcado por um agravamento nas últimas décadas. Depois de um período de crescimento e redistribuição de renda nos anos 2000, o país entrou em 2014 em um ciclo de estagnação dos salários reais, de aumento do desemprego e de piora da desigualdade. Essa trajetória foi tão prejudicial que hoje famílias de todas as faixas de renda têm menos poder de compra do que tinham há uma década. Ao mesmo tempo, o custo de vida segue em alta, com alimentos, aluguéis e serviços essenciais crescendo mais rápido do que a renda. Não por acaso, analistas já preveem que a “affordability” deve ser um mote central das eleições presidenciais de 2026. 

Esse descompasso fica ainda mais claro quando vamos aos números. Entre 2012 e 2025, a renda mensal média cresceu 13%, enquanto o índice oficial de preços ao consumidor (IPCA) chegou a 108%. Quando olhamos para os custos ligados à moradia, vemos que o aumento foi ainda maior: o condomínio mais que dobrou, a energia elétrica subiu 120% e o gás, 175%. Na prática, isso significa que os custos do dia a dia vêm consumindo progressivamente o orçamento das famílias.

Entre domicílios de menor renda, a situação é mais dramática. Hoje, 53% das famílias que ganham até um salário-mínimo comprometem metade ou mais do orçamento apenas com energia. Dessas, seis em cada dez já estão com atraso nessas contas. Essa crise afeta mais a população de baixa renda, particularmente mais vulnerável às oscilações financeiras e ao custo das necessidades cotidianas. Mas, mesmo dentro desse grupo, há quem carregue um peso ainda maior: as mulheres.

Hoje, mais da metade dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. São elas que relatam níveis mais altos de estresse financeiro no lar, e as razões são diversas. Recebem menos pelo mesmo trabalho, têm menos acesso a postos mais bem remunerados, acumulam jornadas mais longas dividindo o tempo entre o trabalho remunerado e o cuidado não remunerado em casa, e muitas são mães solo. É essa combinação que as coloca numa posição de maior vulnerabilidade. 

Dados do Banco Central mostram que 44% das mulheres concordam que as preocupações financeiras são uma fonte de estresse no lar, contra apenas 27% dos homens. Esse padrão se intensifica nas faixas de renda mais baixas: o estresse financeiro no domicílio é uma realidade mais frequente (42,2%) para as pessoas vivendo em domicílios com até dois salários-mínimos do que para aqueles vivendo em residências com mais de cinco salários (28,7%).

Esse cruzamento entre gênero, classe e custo de moradia é, inclusive, um dos eixos da minha tese de doutorado. Ao longo da minha pesquisa, entrevistei 50 mulheres chefes de família residentes em conjuntos habitacionais de baixa renda na cidade de São Paulo para entender como essa crise se materializa no cotidiano. Um padrão se repete: a falta de renda suficiente para arcar com gastos básicos se converte em dívida com instituições financeiras, com administradoras de condomínio, com familiares. 

São as mulheres que conquistaram o acesso à moradia “de graça”, por meio de programas públicos, mas que não conseguem arcar com os custos que vêm junto com ela. Sem renda suficiente, uma rede de apoio e uma infraestrutura de cuidado, essas famílias recorrem à dívida para fechar o mês. No fim das contas, a casa passa a ser, ao mesmo tempo, uma fonte de segurança e de instabilidade constante.

Se a crise da affordability promete ser um dos temas centrais das eleições de 2026, é nos lares chefiados por mulheres que esse debate deve se concentrar. As mulheres chefes de família de baixa renda mostram que, na prática, essa crise significa mais estresse, mais trabalho e mais dívida para sustentar uma conta que não para de crescer. Entender a experiência dessas mulheres é precondição para qualquer política pública que queira de fato reduzir essa pressão desigual. 

Creche e pré-escola com horário compatível com a jornada de trabalho, programas de capacitação focados em mulheres e subsídios para certos serviços essenciais são alguns dos passos essenciais para enfrentar essa desigualdade.

Flávia Leite é pesquisadora do FGV Cidades e pós-doutoranda no Departamento de Planejamento e Design Urbano de Harvard. Doutora em planejamento regional e urbano pela Universidade da Califórnia, Berkeley. Possui formação em economia pela FEA-USP. Realiza pesquisas nas áreas de habitação, políticas públicas urbanas e desenvolvimento econômico.  

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

Compartilhar:

Fundado em 2023, o FGV Cidades: Centro de Inovação em Políticas Públicas Urbanas conta com uma equipe interdisciplinar de pesquisadores nas áreas de políticas públicas, economia, direito, arquitetura, engenharia e ciência de dados. Sua missão é reduzir as desigualdades de oportunidades espaciais por meio de pesquisas científicas bem como assessorando e capacitando diretamente os entes subnacionais brasileiros para avançarem em tecnologia, regulação e políticas públicas, contribuindo para a construção de cidades mais inclusivas, sustentáveis e prósperas.
VER MAIS COLUNAS