A expressão “distrito de inovação” entrou no vocabulário das cidades brasileiras antes que se definisse com precisão o que ela designa. Os americanos Bruce Katz e Julie Wagner, especialistas em urbanismo, que consagraram o conceito num estudo da Brookings Institution em 2014, descreveram áreas urbanas compactas e de uso misto onde instituições âncora e empresas se conectam com startups e com a vida da cidade. A definição separa o distrito de duas figuras com as quais ele costuma ser confundido: 1) O parque tecnológico, modelo que Stanford inaugurou nos anos 1950, reúne empresas e laboratórios num campus afastado e monofuncional; 2) O hub de inovação concentra startups, aceleradoras e investidores num edifício sob gestão única, como a Station F, em Paris. O distrito, esclareça-se, opera na escala do bairro e depende de rua, moradia, comércio, mobilidade e infraestrutura.
Quem financia a transformação de um bairro inteiro é, quase sempre, o solo. Mudança de uso, venda de potencial construtivo e contrapartidas de incorporadores pagam a infraestrutura que universidades e startups não pagariam. A socióloga americana Sharon Zukin mostrou, em The Innovation Complex (2020), de que maneira em Nova York a narrativa da inovação e a valorização imobiliária avançaram juntas. A literatura crítica não propõe abandonar o instrumento imobiliário. Sua pergunta recai sobre a hierarquia entre a estratégia de conhecimento e o plano de negócios. Três casos mostram o que acontece em cada arranjo.
Songdo, na Coreia do Sul, inverteu a referida hierarquia. Erguida sobre aterro por um consórcio de incorporação, ela foi vendida nos anos 2000 como a cidade inteligente do futuro. Os edifícios vieram antes das instituições que deveriam dar-lhes uso, na aposta de que empresas e pesquisa seguiriam a oferta. Duas décadas depois, a cidade convive com torres por ocupar e vida urbana rarefeita.
O 22@Barcelona usou o mesmo instrumento em outra ordem. Em 2000, a prefeitura reclassificou cerca de 200 hectares industriais do bairro Poblenou e ampliou a edificabilidade em troca de solo para equipamentos, áreas verdes e habitação protegida. A valorização pagou redes e espaço público, sob uma política de clusters, universidades trazidas para o bairro e uma agência pública coordenando o conjunto. Mesmo assim, em 2020 a cidade revisou o plano para conter o excesso de escritórios e ampliar moradia.
No Recife, o Porto Digital nasceu em 2000, no centro histórico degradado, de um ativo que nenhum incorporador fabricaria, o Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Com casarões restaurados e ISS reduzido, o parque reúne hoje mais de 470 empresas. Norma Lacerda e Ana Cristina Fernandes, professoras daquela instituição, mostraram que o êxito também produziu renda imobiliária e pressão sobre os usos anteriores, lembrando que a âncora de conhecimento só subordina a lógica do solo enquanto a governança se mantém firme.
Os três casos desautorizam a ideia de um modelo a copiar. O 22@ respondeu à desindustrialização de um bairro operário, o Porto Digital a uma universidade que formava talento sem ter onde retê-lo, e Songdo tentou produzir de uma vez o que nos outros dois resultou de décadas de acúmulo. Cada distrito de inovação nasce de um contexto. Quem o planeja deveria começar pelo inventário do que o lugar já tem e perguntar quem permanecerá quando o ciclo imobiliário buscar outra frente. O plano de negócios continuará pagando a conta, e caberá à estratégia decidir no que o dinheiro é gasto.
Élcio Batista
Coordenador do Programa Cidade +2ºC do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.