Nós, arquitetos, urbanistas e todos que somos apaixonados pelo tema das cidades, nos deparamos diariamente com situações que não deveriam ser naturalizadas, sobretudo no contexto brasileiro. Exemplos comuns são calçadas esburacadas, carros estacionados em locais proibidos ou obras que deixam a cidade suja — situações muitas vezes relativizadas.
Não se trata apenas da zeladoria urbana, mas também de percepções equivocadas sobre o que significa qualidade arquitetônica e de vida urbana. Ouvimos elogios a edifícios neoclássicos como se fossem grandes obras da arquitetura contemporânea, ou ainda vemos o fascínio de famílias por condomínios-clube fechados, com serviços “all inclusive”, que criam ilhas de conforto cercadas por muros. Diante desse cenário, torna-se difícil encontrar alento, ainda que existam iniciativas como o Caos Planejado, que buscam propor alternativas para cidades mais vibrantes, seguras e justas.
Diante disso, só há um caminho: ensinar urbanismo desde cedo. Talvez essa disciplina seja até mais relevante do que algumas matérias que hoje compõem o currículo do ensino fundamental e médio. Afinal, é preciso formar cidadãos que compreendam como funciona a cidade, que questionem seus problemas e sejam capazes de propor soluções. Mas o que ensinar e o que esperar desse aprendizado?
No campo profissional, é essencial valorizar a arquitetura e o urbanismo — áreas ainda muito desvalorizadas no Brasil. Essa valorização abriria espaço para que estudantes se interessassem também por outros campos relacionados à cidade, como geografia, economia e sociologia. Sem isso, corremos o risco de continuar sendo uma minoria que escreve apenas para si mesma, realizando eventos e seminários restritos, sem difundir o grande conhecimento acumulado. Mais do que nunca, precisamos formar hoje os políticos de amanhã, aqueles que terão a responsabilidade de tomar decisões que moldarão nossas cidades.
Um bom exemplo de como essa articulação pode acontecer ocorreu no 3º Encontro Cidades Responsivas, promovido pelo Instituto Cidades Responsivas. Durante dois dias de palestras, o evento reuniu diferentes atores da vida urbana — pensadores, gestores, planejadores e políticos — que atuam em níveis nacional e internacional. Essa troca de experiências é essencial para compartilhar práticas, apresentar trabalhos e discutir ideias que possam transformar os espaços urbanos. Precisamos de mais espaços como esse.
O caminho, portanto, é formar uma massa crítica de cidadãos que compreendam as cidades e que, em algum momento, terão poder de decisão para tomar as melhores escolhas para o futuro urbano. Leciono há alguns anos com a expectativa de, um dia, entrar em um gabinete de uma secretaria de planejamento urbano — ou em órgãos afins — e encontrar ali um ex-aluno meu. Sinto que esse momento está próximo. Até lá, seguirei trabalhando para que isso aconteça, escrevendo colunas, artigos e livros que contribuam para esse processo e que ajudem a realizar esse sonho coletivo.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.