Desastres “naturais”?

2 de outubro de 2026

“Os políticos só vêm aqui para pedir votos. Enquanto isso, eu estou aqui, sem poder sair de casa e com medo de pegar leptospirose”.

Essa foi uma das falas que eu, alunos e professores colegas escutamos em uma visita recente ao Jardim Lapenna, na Zona Leste de São Paulo. As palavras foram ditas por uma idosa na porta de sua casa, em uma viela tomada pela água suja. Canos de água “potável” improvisados estavam submersos na inundação.

Em outra parte do bairro, o Galpão ZL, equipamento comunitário local, também estava debaixo d’água. Um mutirão que seria realizado naquele dia precisou ser cancelado. De fato, tentamos acessar o Galpão, mas a cheia nos impediu.

Para quem, como eu, mora em uma casa que protege bem contra as tempestades, o barulho da chuva na janela pode até agradar. Mas, no Lapenna, no Jardim Pantanal e em outros tantos territórios em São Paulo, a precipitação causa preocupação e ansiedade.

Os desastres “naturais” são construídos de modo a afetarem certas populações. Da mesma forma, o “risco” de inundações e deslizamentos não é igual para todos. Para alguns, ele se mostra muito mais tangível que para outros.

Da mesma forma que o reconhecimento pelo poder público também não chega de maneira igualitária. Embora a favela no Lapenna de onde a senhora ilhada falava esteja demarcada como Zona Especial de Interesse Social, o assentamento não aparece junto às demais favelas de São Paulo em mapeamentos oficiais da Prefeitura.

Risco seletivo e visibilidade parcial frente ao Estado costumam levar ao comprometimento da implementação de políticas públicas. A área em questão está passando por obras para a contenção das cheias, mas a moradora pedia algo a mais e ao mesmo tempo básico: uma moradia digna.

Com a aproximação das eleições (mesmo que não em nível municipal), sugiro nos atentarmos a essas realidades às vezes distantes e que vêm à tona somente em alguns momentos. Podemos votar pelo nosso futuro individual ou de toda uma cidade, de um estado e de um país.

“Eu acordei com a água chegando na minha cama”, outra moradora do Lapenna relatou na visita à área. “Eu não desejo isso nem para o meu pior inimigo”. Ao votarmos de maneira consciente, podemos tentar evitar essa realidade não apenas aos “inimigos”, mas também aos amigos e a quem a gente não conhece.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Doutor em Planejamento Urbano e Regional pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Arquiteto e urbanista formado na FAUUSP, cursou o mestrado em Planejamento Urbano pela Universidade de Columbia (EUA). Lá, ganhou o prêmio Charles Abrams pela dissertação com o maior comprometimento com justiça social. Também trabalhou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo entre 2014 e 2016, com atuação na urbanização de sete favelas das zonas Sul e Oeste da cidade.
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