Desacelerar para caminhar: a cidade que a pressa não deixa ver

5 de agosto de 2026

Você provavelmente já viveu esta cena. Saiu de casa com pressa, entrou em um ônibus lotado, enfrentou o trânsito, se distraiu como pôde e, ao chegar ao destino, percebeu que não lembrava de praticamente nada do caminho. Nenhuma árvore, nenhuma praça, nenhum comércio, não se relacionou com nada das ruas da cidade.

Agora pense em um trajeto que fez a pé. É provável que tenha reparado nas árvores no caminho, ou a ausência delas, observado outras pessoas caminhando e até suas conversas, sentido o cheiro de café ou pão vindo de uma padaria. A cidade e os espaços mudam completamente quando diminuímos a velocidade.

A velocidade média de uma pessoa adulta sem restrições de mobilidade e em ruas com boas condições de caminhabilidade é de 4,7 km/h. Mas a velocidade média de uma pessoa assim usada para calcular o tempo de travessia definido no Estatuto de Pedestres de São Paulo é 3,60 km/h.

Se considerarmos condições de cuidadoras, pessoas idosas e pessoas com deficiência:

  • ● 2,9 km/h – Pessoa cuidadora empurrando carrinho ou carregando um bebê; calçadas em bom estado, travessias adequadas.
  • ● 2,8 km/h – Pessoa idosa.
  • ● 2,2 km/h – Crianças até 7 anos e pessoas com deficiência.
  • ● 1,9 km/h – Pessoa cuidadora carregando uma criança ou andando com várias crianças; algumas obstruções.
  • ● 0,9 km/h – Pessoa cuidadora andando com uma criança; muitas paradas, muitas obstruções, calçada não contínua.

(Fonte: Estatuto de Pedestres de São Paulo e Cidades de 15 minutos: como atender às necessidades de bebês, crianças pequenas e cuidadores, ITDP Brasil.)

Mais do que um modo de deslocamento, caminhar é uma forma de perceber o lugar onde vivemos. É quando enxergamos detalhes que desaparecem para quem passa rapidamente, sejam eles bons ou ruins. Caminhando percebemos pessoas, fachadas, árvores, calçadas e até problemas que antes passavam despercebidos.

Durante décadas, grande parte das cidades brasileiras foi planejada para facilitar a circulação dos automóveis. Ruas ficaram mais largas, avenidas cresceram e viadutos se multiplicaram, enquanto calçadas foram estreitadas e travessias se tornaram mais difíceis. O resultado é conhecido e sofrido por todos: crianças deixam de brincar na rua, pessoas idosas evitam sair sozinhas, mulheres têm medo de caminhar à noite e quem pode usa o carro ou a moto até para trajetos curtos.

Quando isso acontece, perdemos muito mais do que mobilidade. Perdemos autonomia, convivência, saúde e qualidade de vida.

A velocidade dos veículos influencia diretamente a experiência urbana, mas também a segurança viária. Quanto maior a velocidade é, menor o tempo para reagir e mais graves tendem a ser os sinistros de trânsito. Por isso, a Organização Mundial da Saúde recomenda velocidades máximas de 30 km/h em ruas onde pessoas caminham, pedalam, estudam e convivem.

Diversas cidades já adotaram essa estratégia. Bolonha, Paris, Bogotá e outras reduziram velocidades para tornar as ruas mais seguras e agradáveis. A Alemanha tem uma coalizão com mais de 1.100 municípios e organizações da sociedade civil para que o Código de Trânsito Nacional defina 30km/h como velocidade padrão no ambiente urbano e 50 km/h como exceção (confira nosso podcast sobre este e outros casos). Enquanto isso, o Brasil tem uma das piores legislações da América Latina e Caribe, permitindo velocidades de até 80km/h em vias urbanas. O resultado é trágico: 15 mortes de pedestres por dia, ou uma a cada 36 minutos (de acordo com os dados do DATASUS de 2024).

Mas desacelerar não significa apenas evitar atropelamentos. Significa criar cidades onde mais pessoas escolhem caminhar, utilizar o comércio local, ocupar praças e fortalecer os vínculos com a comunidade.

Crianças e cuidadoras andando no meio da rua em São Paulo pela falta de estrutura que acolha o caminhar e suas velocidades.

Infelizmente, o caminhar não é priorizado no país. Duas em cada três brasileiras vivem em ruas sem rampas de acesso nas esquinas e menos de um quinto da população mora em vias com calçadas livres de obstáculos (IBGE, 2025). Melhorar a infraestrutura para quem caminha é investir em inclusão, segurança, qualidade de vida e valorização de espaços públicos de permanência.

Ao desacelerar as ruas, mais encontros acontecem, mais pessoas ocupam os espaços públicos e a cidade se torna mais humana e segura.

Esse também é o convite da Semana do Caminhar 2026, que acontece entre os dias 2 e 8 de agosto com o tema “Desacelerar para Caminhar”. É um convite para imaginar cidades onde a velocidade deixe de ser a prioridade e dê lugar ao que realmente importa: as pessoas.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Organização liderada por mulheres, movida pela urgência de alcançar a equidade de gênero e enfrentar a crise climática, desenvolve cidades caminháveis com o protagonismo da cidadania. ([email protected])
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