Ele veio dançando sobre as águas
Com seus galeões e armas
Procurando pelo Novo Mundo
Naquele palácio sob o sol.
Na costa estava Montezuma
Com suas folhas de coca e suas pérolas
Em seus salões, ele se perguntava
Sobre os segredos dos mundos.
E seus súditos se reuniram ao seu redor
Como as folhas ao redor de uma árvore
Em suas roupas de muitas cores
Sob os olhares dos deuses raivosos.
E todas as mulheres eram lindas
E os homens eram fortes e valentes
Ofereceram a vida em sacrifício
Para que outras pessoas pudessem ir em frente.
Ódio era apenas lenda
E a guerra nem mesmo existia
As pessoas trabalhavam juntas
E ergueram muitas pedras.
Levaram-nos para as planícies
E eles morreram ao longo do caminho
Mas eles construíram com as próprias mãos
O que nós ainda hoje não podemos fazer.
E eu sei que lá ela ainda mora
E que até hoje ela me ama
Só não me lembro quando
Ou como eu me perdi.
Ele veio dançando sobre as águas
Cortez, Cortez
Mas que assassino.
Neil Young, 1975
Quando Cortez chegou a Tenochtitlán em 1519, Montezuma já tinha se consolidado como o grande imperador. Montezuma fez de Tenochtitlán o centro da vida azteca. Testado na guerra e nas intrigas reais, Montezuma viu em Cortez o retorno do deus Quetzalcóatl e sucumbiu ao brilho da novidade.
Quando a crença no impossível é por demais exagerada, fica fácil sucumbir a tanto brilho, tantas histórias, tanta promessa e tanta pólvora.
A força era a da espingarda, mas também da varíola, da gripe e das doenças que os europeus carregavam, imunes.
Tudo aconteceu muito rapidamente e, em 1521, Tenochtitlán e o império Azteca não passavam de ruínas sobre as quais a Espanha “estruturou” (“estruturou” é bom, parece construtivo, não?) seu próprio império nas Américas.
Tenochtitlán era, então, uma cidade maior e mais desenvolvida do que a maioria das capitais europeias. Cidade localizada em uma ilha (num lago onde atualmente se localiza a Cidade do México), era organizada, estranhamente, como as capitais europeias, a partir de um centro cívico, institucional e religioso, a partir do qual se desenvolvia de forma radial, capilarizando até as bordas por ruas e canais (como Bruges, Veneza e Amsterdã).
Mas, se esses mundos não se conheciam, jamais se comunicaram, trocaram informações ou exerceram qualquer intercâmbio, qual era a chance que suas principais cidades obedecessem à mesma lógica urbana?
A fórmula é sempre a mesma: cidades articuladas a partir de um generoso espaço aberto (praça), ao redor da qual estão sempre representadas o poder central e a divindade; na praça, o principal local de encontro e exercício da cidadania (permitida), o comércio com seu mercado.
Minha tese é que, não importa a cultura, a história ou o estágio civilizatório de cada povo, continente ou região, a construção social sempre se desenvolveu em torno desses dois eixos, o terreno e o divino.
Num determinado continente serão seus reis e a igreja, noutro os imperadores e o panteão de deuses, noutro uma junta de nobres e a instituição que tenha obtido o direito (e o privilégio, porque não) de representar e interpretar os desejos divinos. Não importa a embalagem, mas a estrutura e a organização, sempre iguais, em qualquer época, e mesmo em mundos completamente apartados.
Interessante, porque se isso faz algum sentido, podemos perceber a cidade como a mais pura expressão de cada pessoa e, em conjunto, de cada comunidade.
Seriam as cidades, no seu início, fruto não do engenho humano, mas de seu instinto?
Sempre que voltamos a nossa atenção a cidades como Paris e Londres, ambas milenares, tanto a espontaneidade quanto a estrutura radial (a partir de espaços centrais com a presença dos poderes terrenos e divinos) estão lá, ainda hoje, perceptíveis.
O mesmo vale para Jerusalém, Atenas, Istambul e Roma, São Petersburgo, Cairo e Beirute.
Talvez as palavras, aqui, sejam espontaneidade, instinto e, num nível mais científico e na “fase adulta” das cidades, direcionamento e influência (em oposição ao planejamento e controle que tomaram as pautas acadêmicas e os corações no século XX).
Primeiro a espontaneidade nascida do instinto e da ausência de conhecimento (a expressão máxima do que possa ser o bom senso), com toda a simbologia e expressão do poder vigente; depois, o conhecimento humano e uma coletânea das melhores experiências direcionando e influenciando.
A mim, parece que um modelo de gestão baseado na influência e direcionamento das forças de mercado, a partir de um conjunto de objetivos bem determinados, tenha a capacidade de realizar muito mais, em muito menos tempo, de forma mais positiva e assertiva do que modelos estruturados em excesso, e com controle demais.
Muito melhor do que os modelos aplicados no século XX, e aos que apostam em modelos de longo prazo, aos que se baseiam na predição de reações baseadas nos estímulos aplicados, recomendo se acostumarem com frustrações e resultados desastrosos, não raro opostos aos previstos.
Bom senso e conhecimento acumulado. Inventividade humana e empreendedorismo.
Só isso deve bastar.
Só isso deveria bastar.
(Cortez The Killer não é só uma música; é mais uma espécie de acontecimento, pelo genial Neil Young. Correndo o risco de um reprimenda, sugiro a versão de Dave Matthews e Warren Haynes no Central Park de NY)
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.