Coragem, perseverança e “milagres urbanos”, ou as virtudes da cidade

24 de abril de 2026

Tempos atrás estava preparando material para uma palestra sobre o planejamento e a gestão de nossas cidades, e me veio à memória uma campanha publicitária contratada pela Prefeitura de Curitiba, pertinho da virada do milênio, com o intuito de reforçar a política pública do descarte adequado do lixo reciclável. Nela, nossa estrela do basquete então em seu auge, Oscar Schmidt, se senta em um banco de praça ao lado de um senhor que está lendo o jornal, tomando algo em um copo de papel. Ao se sentar, ele cumprimenta o senhor (que responde!) e observa, com curiosidade, várias pessoas que passam realizando acrobacias elaboradas no arremesso do seu lixo na cestinha dos recicláveis, sempre acertando o alvo. Ao terminar sua bebida, ele se prepara, lança seu copo usado em direção a cestinha e… erra! O senhor que estava ao seu lado baixa o jornal e, gentilmente, em tom de brincadeira, comenta: “O senhor não é daqui, né?”

Uma das observações mais comuns que ouvimos nos trabalhos de consultoria urbana que a JLAA tem o privilégio de realizar Brasil afora, ao propor algo que “perturbe” o status quo ao delinear uma visão de futuro, é: “a cultura do nosso povo é outra, isso não vai dar certo aqui; isso funciona em Curitiba, mas aqui é diferente”, e variantes. E esse ceticismo, que é compreensível, não emana apenas dos gestores municipais, mas também permeia o empresariado e a própria sociedade civil.

Ainda que compreensível, essa inércia pessimista (ouso dizer, preguiçosa…) é perturbadora, e denota uma incompreensão grave de um elemento basilar, seja da experiência de Curitiba, seja de qualquer outro caso bem-sucedido de transformação urbana: a fundamental coragem de romper o status quo e a perseverança no estímulo e na continuidade das mudanças para que elas tenham o tempo necessário para permear resistências e criar raízes profundas e saudáveis no contexto local. Serão essas raízes que nutrirão o processo de “aculturamento” da sociedade e que viabilizarão transformações sustentáveis e que enriquecerão o solo para que novas mudanças possam criar raízes, em um processo que, na sua continuidade, fomenta um círculo virtuoso capaz de catapultar positivamente o desenvolvimento de uma cidade. 

Mudanças de comportamento não se dão do dia para a noite, como, no fundo, sabemos todos nós. Há mais de 2.500 anos Aristóteles já ensinava em “Ética Nicômaco” que a virtude (areté) é uma excelência habitual, não inata, alcançada pela repetição de boas ações, transformando o caráter humano. Não é um ato único, mas a disposição constante de agir da maneira correta. O desenvolvimento da virtude exige, portanto, a repetição consciente de atos de excelência até que agir bem se torne natural (um hábito).

Seguindo com o exemplo do lixo reciclável que abriu este texto, quando se desenhou o calçadão da Rua das Flores lá no início dos anos 1970, já se propuseram lixeiras e floreiras como elementos relevantes do mobiliário da cidade, lembrando à população que lugar de lixo é no lixo, não no chão. O programa “Lixo que Não é Lixo” foi criado em 1989, acompanhado de um projeto de “pedagogia urbana” que incluía a campanha de comunicação que marcou o imaginário coletivo dos curitibanos (nascidos ou adotados) com a Família Folhas. A referida peça publicitária com Oscar é de 1999. Em 2014, a gestão da época mudou as personagens para o Dr. Sigmundo e seus pacientes, mas manteve o tema. Em 2022, a prefeitura retomou a Família Folhas, que agora tem site próprio e série no YouTube. Ou seja, são mais de quarenta anos de investimento em uma faceta de um dos temas urbanos estratégicos que é a gestão dos resíduos sólidos. 

Mudar e sustentar a mudança dá trabalho. E é o único jeito de operar “milagres” nas cidades.

Por Ariadne dos Santos Daher

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Com base na experiência de Jaime Lerner e das equipes que com ele trabalharam, o Instituto Jaime Lerner almeja despertar uma consciência positiva sobre o potencial transformador das cidades e seu desenvolvimento sustentável, inclusivo e criativo. ([email protected])
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