Coragem de sonhar

30 de outubro de 2026

Observando alguns dos grandes eventos que aconteceram ultimamente, reflito sobre aquelas árvores derrubadas pela última tempestade. Estremeço ao notar a mudança repentina das cores do céu prestes a desabar sobre os prédios, casas e ruas. O calor castigador no asfalto evoca a nostalgia da brisa. O barulho constante do tráfego intenso atrita os sentidos cansados. A iminência da inundação do rio me faz desejar poder desviar as águas que ameaçam invadir sorrateiramente o lar daquela família. 

Praticamente tudo parece estar relacionado a crises: crise climática, crise socioambiental, crise política. A forma como nos relacionamos com a natureza, com a cidade, com as próprias pessoas entre si, parece estar gerando essas consequências com as quais não estamos preparados e preparadas para lidar.

As cidades brasileiras enfrentam cotidianamente esses desafios. Apesar deles, nelas também passam os carros do ovo, do leite e do sonho. Foi em uma dessas cidades que me vi atraído para um bar amarelo, barulhento de conversas e risadas e tomado pelo cheiro irresistível de uma fritura fresquinha, e fui convidado a sentar com uma boa companhia para tomar uma caipirinha. Em outra, entrei em uma pequena casa à beira da estrada, de bolos da vovó, e lá recebi, na mesa de toalha florida, um pratinho com uma fatia generosa de bolo de mexerica. Na minha cidade, fui surpreendido pela alegria espontânea de uma marchinha de samba acompanhada de muita gente contente, em um momento em que a atmosfera social anda tensionada. Felizmente, a nossa história ensina que pode haver cor mesmo em tempos difíceis. 

Manter-se funcionando em meio às adversidades, porém, demanda considerável esforço. E assim, quase sem perceber, esses “brilhos” repentinos vão ficando mais escassos na rotina. Diante de muito o que resolver, é preciso manter a coragem de sonhar. Pode ser coisa de “gente arquiteta” isso de pensar que o que está dentro de nossa cabeça talvez seja melhor do que esse mundo que está posto… Mas essa ousadia, essa disposição para buscar cenários diferentes, é importante para impulsionar mudanças a acontecerem.

E se nessa rua não passassem carros? E se tivesse um parquinho para o qual as crianças levassem as pessoas adultas para brincar? E se no topo deste prédio houvesse uma casa de doces da vovó, para que assistíssemos ao pôr do sol com sabor mexerica? E se pudéssemos mergulhar nesses rios, como antes alguém já fez? E se conseguíssemos conviver um pouco melhor com a natureza? E se, além de novas formas, desenhássemos também novos usos? E se depois do “e se” vier o “como”?

Há muita potência nesse trabalho de imaginar um mundo um pouquinho diferente. Quando projetamos um quarto, uma casa ou uma rua, estamos, simplificadamente, reunindo ideias abstratas e as traduzindo em experiência material. É o trabalho de transformar sonhos em realidade. No dia a dia, claro, podemos nos sentir longe desse ideal. Mas, ainda assim, essa possibilidade segue sendo verdadeira.

Na arquitetura ou em qualquer outra área, existe importância no gesto, na intenção. Conquanto não seja possível resolver o mundo com uma lapiseira, que possamos sempre encontrar essas frestas de oportunidade. E talvez seja essa a nossa maior contribuição: ajudar a lembrar que é possível.

Rodrigo Gioppo. Arquiteto, urbanista e artista cênico.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Com base na experiência de Jaime Lerner e das equipes que com ele trabalharam, o Instituto Jaime Lerner almeja despertar uma consciência positiva sobre o potencial transformador das cidades e seu desenvolvimento sustentável, inclusivo e criativo. ([email protected])
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