Como a economia urbana explica o abandono de tradicionais corredores comerciais
10 de fevereiro de 2026Há algumas semanas, o Instituto Cidades Responsivas forneceu dados para uma reportagem da RBS TV que analisava antigos e importantes corredores comerciais de Porto Alegre que hoje experienciam um esvaziamento de suas lojas e salas. A matéria teve foco na Avenida Protásio Alves, situada a oeste da área central, e se baseou, em grande parte, na percepção dos comerciantes e residentes da área, que relatam um gradativo abandono da via e um acúmulo de espaços sem uso ao longo dela. A tais impressões, é interessante também observar como essa dinâmica se relaciona com conceitos teóricos de cidades.
Os valores de aluguel servem como indicativo dessa diminuição da demanda por unidades comerciais vista na Protásio Alves. No mapa da imagem abaixo, cada ponto representa um anúncio de aluguel de uma loja ou sala comercial, com as cores mais escuras indicando os itens com menor valor de aluguel por área útil da unidade. Nota-se que um dos trechos que compõem a Avenida Protásio Alves combina uma grande quantidade de anúncios com valores abaixo do que se observa em seus arredores. Isso sinaliza que há uma oferta de espaços comerciais no local maior do que a demanda existente por eles, de modo que os proprietários acabam tendo que diminuir o valor do aluguel para conseguir atrair locatários para a área.

Mas o que explica esse abandono e consequente desvalorização da Protásio Alves? É difícil apontar uma única razão para aquilo que ocorre nas cidades; porém, podemos enumerar algumas causas que possivelmente contribuem para essa dinâmica. Uma delas é que, nas últimas décadas, ocorreu uma expansão das regiões oeste e sul de Porto Alegre, originando novos focos comerciais em tais áreas ou reforçando aqueles já existentes. Ao mesmo tempo, a população da cidade já demonstra sinais de estagnação conforme os dados do Censo Demográfico, o que implica uma diminuição do público que consumiria nos comércios da cidade como um todo, a qual se agrava ao considerarmos a diminuição das compras presenciais devido ao comércio digital, que se tornou mais expressiva na última década.
Esse confronto de uma oferta crescente com um demanda decrescente faz com que as diferentes centralidades comerciais da cidade acabem competindo entre si pelos consumidores existentes. Nessa dinâmica, se sobressaem os locais com características ou elementos capazes de atrair pessoas para frequentá-los ou residir neles, como áreas urbanisticamente mais atrativas — próximas a parques ou que são mais caminháveis, por exemplo — ou aquelas que melhor atendem a exigências específicas de determinados públicos, como a presença de estabelecimentos de determinado padrão ou a existência de espaço para estacionamento. A Avenida Protásio Alves, nesse sentido, acaba sendo prejudicada porque alguns de seus trechos são locais difíceis para caminhar — calçadas estreitas, relevo acentuado, diversas fachadas muradas, tráfego de automóveis intenso em determinadas horas do dia — ao mesmo tempo que são pouco atrativos para quem dirige, por não ter ampla oferta de vagas de estacionamento, por exemplo.
Reverter esse processo exige algum tipo de ação específica na área, como incentivos do Plano Diretor para instalação de novas densidades residenciais ali ou a inserção de um novo equipamento ou projeto de melhoria do espaço urbano. É nesse momento que se torna importante a capacidade da cidade de ser responsiva, agindo a partir do que os dados e percepções da população indicam.
Guilherme Kruger Dalcin
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.