Cidades Responsivas na prática: como alcançar a dimensão transformadora?

27 de janeiro de 2026

A resposta é a educação. A resposta é simples; colocá-la em ação, no entanto, exige um esforço de revisão da práxis à qual nos acostumamos no Brasil quando se trata de ensinar a fazer cidades.

Basta lembrarmos de uma pergunta recorrente no ambiente universitário: “você trabalha ou só dá aula?”. Ou ainda de afirmações que colocam o ensino em oposição à ação: “quem não sabe fazer, ensina”. Esse tipo de pensamento revela uma falsa dicotomia entre prática e reflexão. Paradoxalmente, é consenso que a educação constitui a base transformadora de qualquer sociedade. Historicamente, foi o avanço educacional — aliado ao progresso tecnológico e institucional — que permitiu à humanidade se distanciar da armadilha malthusiana. O desenvolvimento sustentável depende, necessariamente, da ampliação do acesso ao conhecimento.

Se aprender é, de fato, transformador, talvez o problema esteja menos na ausência de educação e mais na forma como estamos aprendendo — e, consequentemente, ensinando. Existe uma persistência em separar dois mundos que deveriam estar em cruzamento contínuo: o mundo em que vivemos e agimos e o mundo em que aprendemos. A Bauhaus, fundada há mais de um século, foi ousada ao tentar romper essa separação. Mais do que unir arte, técnica e indústria, ampliou o entendimento do que poderia ser a arquitetura. Seu diferencial foi o desejo de colocar em escala produtiva aquilo que se desenvolvia na academia. Embora não tenha se sustentado — fragilizada por um modelo econômico dependente de doações e atravessada pelo contexto geopolítico da época —, a Bauhaus foi suficientemente potente para marcar a história. Seu principal legado, do ponto de vista deste artigo, foi a ruptura que provocou no status quo de sua época, ao tensionar a relação entre criação e produção.

A escola contemporânea, responsável pela formação de quem irá atuar no desenvolvimento das cidades, precisa assumir papel semelhante: oportunizar experiências que revelem ações concretas. Isso significa incorporar condicionantes reais aos processos de aprendizagem, provocar soluções aplicáveis aos problemas urbanos identificados e, sobretudo, criar referências capazes de escalar boas práticas. O desafio vai além da instrumentalização técnica ou da transmissão de conceitos, história e referências; exige também que se assuma posição dentro da rede de agentes que efetivamente constrói a cidade.

A aplicação prática dessa escala transformadora é visível na CRIA+, iniciativa desenvolvida na quarta turma do MBA Cidades Responsivas. O projeto visa converter a invisibilidade das periferias em protagonismo econômico ao estruturar um hub de conexões que integra o empreendedorismo local a fluxos de investimento e valor. Ao articular inteligência territorial, mapeamento de ativos e um funil de maturidade para negócios, a plataforma demonstra como o ambiente educacional pode atuar como um laboratório de soluções reais, capazes de promover o desenvolvimento econômico e a vitalidade local.

Sob outra perspectiva, a SmartMob ilustra como a inteligência de dados pode modernizar a governança da mobilidade urbana. Também fruto do ambiente de experimentação do MBA, o sistema utiliza a tecnologia para reduzir gargalos operacionais através de três frentes estratégicas: a estruturação de dados (Go Data), a assistência direta ao cidadão via inteligência artificial no WhatsApp (Aya) e o monitoramento em tempo real para auxílio à decisão dos gestores públicos (SIGGO). A iniciativa posiciona a educação contemporânea como um laboratório de inteligência aplicada, capaz de assegurar maior eficácia e transparência aos serviços urbanos.

Outro aspecto fundamental para alcançar escala transformadora é criar oportunidades para que essas ideias sejam comunicadas ao mundo. Ao circularem, encontram agentes capazes de construir pontes, formar redes, acelerar processos e ampliar o impacto das soluções desenvolvidas no universo acadêmico. Para fazer cidades responsivas, escolas contemporâneas precisam assumir-se como sistemas que criam redes distribuídas: ambientes que conectam conhecimento e projetos a investimentos, políticas e oportunidades concretas. Mais do que formar profissionais, devem preparar as pessoas para compreender e tornar efetiva sua atuação em permanente articulação entre reflexão e ação.

Luciana Fonseca e Marina Pires

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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