Não é de hoje que se fala em um outro modelo possível de cidades no mundo. Espaços urbanos pensados para a escala humana — as “cidades para pessoas”, como chama o arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl — têm se tornado referência.
É fácil admirarmos as ideias desse modelo. Por exemplo: Gehl propõe cidades mais caminháveis, cujos pedestres, em ritmo mais lento do que os automóveis, possam se atentar à paisagem urbana e se sentir pertencentes a ela. O arquiteto sugere ainda zonas de transição entre os edifícios e as calçadas, como lojas com vitrines onde haja troca de olhares entre quem está dentro e quem está fora — de modo a haver um contato e até mesmo uma vigilância mútua.
Embora bastante cativantes, as cidades para pessoas tal como o dinamarquês idealiza são de difícil implementação no Brasil. Por exemplo: por mais desejável que seja, a adaptação das cidades para o pedestre — ou mesmo para os ciclistas — é bastante difícil e, em alguns casos, impossível.
Cidades europeias como Copenhagen tendem a ser compactas, ou seja, ocupam uma área construída relativamente pequena, sendo, portanto, mais propensas a caminhadas. Já centros urbanos como São Paulo cresceram sob uma lógica de espraiamento, com longas distâncias, especialmente entre a maioria dos lares e os empregos.
Isso significa que devemos desistir e jogar a toalha? Não!
Por mais que as soluções no nível do desenho urbano possam ser outras, as cidades brasileiras podem se beneficiar com a lógica por trás dos ensinamentos de Jan Gehl. Já que dificilmente alguém vá caminhar entre a Brasilândia, no limite norte de São Paulo, e a Avenida Paulista, por que não construir entre essas regiões linhas de metrô com bicicletários, aos quais o trabalhador possa chegar e deixar sua bike antes de embarcar no trem? Por que não estimularmos fachadas ativas, com suas vitrines e com o movimento tão caro ao comércio, em ruas de grande circulação em vez de estimularmos grandes recuos frontais que distanciam os edifícios das calçadas?
Algumas medidas inspiradas na filosofia de Gehl já estão sendo testadas. Como o estímulo às fachadas ativas, oriundo do último Plano Diretor Estratégico de São Paulo.
É verdade que são necessários aprimoramentos. Mas podemos e precisamos mudar o nosso mindset, como se diz por aí. As pessoas nas nossas cidades agradecem.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.