Cidade: modo de usar

20 de outubro de 2026

Conversava dia desses com um amigo, durante a aula de futebol dos nossos filhos, quando ele disse uma frase que ficou na minha cabeça a semana toda: “as pessoas precisam aprender a usar a cidade”.

Falávamos, naquele momento, sobre os locais de São Paulo onde já trabalhamos, Paulista, Berrini, Faria Lima, Centro, e ele comentou que, mesmo trabalhando atualmente em Pinheiros, área riquíssima em opções gastronômicas, às vezes aproveitava o fácil acesso à Linha 4 – Amarela do Metrô para almoçar na República – recentemente apontado como um dos bairros mais legais do mundo por sua diversidade e opções de gastronomia, cultura e lazer.

Eu já tenho o privilégio de trabalhar no Centro e também costumo ir bastante até a República para almoçar, tomar um café no térreo do Copan ou no alto do Sesc 24 de maio, procurar livros na Megafauna ou na Eiffel, passear pela Galeria Metrópole, curtir uma nostalgia na galeria de brinquedos antigos da 7 de abril ou nas lojas de vinis da Galeria Nova Barão.

No Centro Histórico também não faltam opções para quebrar um pouco a rotina. Somente nas últimas semanas, por exemplo, durante o horário de almoço, tive o prazer de visitar a exposição “Rembrandt – O Mestre da Luz e da Sombra” na Caixa Cultural, e a mostra “Apocalipse”, do Alex Flemming, em um edifício histórico redescoberto recentemente. Também almocei na linda “Casa de Francisca”, além de ter encontrado minhas próximas leituras nos vastos acervos dos sebos na região da Praça João Mendes.

A facilidade de acesso às linhas 1 – Azul e 3 – Vermelha também me permite explorar bairros próximos e curtir um lámen na Liberdade num dia frio, dar um pulo na Avenida Paulista, em algum de seus muitos centros culturais, visitar a Pinacoteca (meu museu preferido) na Luz e comer comida coreana ou judaica no Bom Retiro.

É claro que o ritmo de vida da metrópole e as exigências do trabalho nem sempre permitem essas quebras na rotina. Resumir a vida urbana a congestionamentos, ônibus lotados, trabalho árduo, aluguéis caros e isolamento em condomínios fechados, por outro lado, pode fazer da vida na grande cidade um despropósito.

Minha pretensão aqui não é apresentar uma espécie de manual de instruções ou guia prático de como se viver na cidade. Nem seria possível: assim como a vida, a cidade é complexa demais, cheia de possibilidades, formada por milhões de pessoas com diferentes gostos e objetivos.

Independentemente dos gostos e objetivos, porém, o que pode tornar atrativa e interessante a vida em uma grande cidade como São Paulo (e acaba, é claro, por encarecê-la), além de empregos e oportunidades de negócio, é a facilidade de acesso a uma ampla gama de opções de cultura e lazer – as quais, por sua vez, só são viáveis em uma grande cidade como São Paulo.

Não encontrar formas de se aproveitar disso tende a fazer da vida na grande cidade um verdadeiro transtorno, com os custos de se viver ali sempre parecendo muito maiores do que os seus (inúmeros) benefícios.

“As pessoas precisam aprender a usar a cidade”, bem disse o meu amigo. Isso significa que você não precisa esperar o sábado para ir à exposição: pode ir no horário de almoço. Não precisa transformar um almoço ou jantar na República em um evento: pode simplesmente pegar o metrô. Não precisa “visitar o Centro”: pode dar um pulo lá e aproveitar um café, uma livraria, uma galeria. Também não precisa esperar pela próxima viagem para apreciar arquitetura e conhecer prédios históricos: pode prestar mais atenção nos caminhos que faz todos os dias.

Usar a cidade, entre outras coisas, é entender que ela pode ser incorporada de forma muito mais estimulante à vida cotidiana.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Economista pela FEA-USP, mestre em economia pela EESP-FGV e tem mais de 20 anos de experiência na área de pesquisas e estudos econômicos. Mora em São Paulo e caminhar pela cidade é um de seus hobbies favoritos ([email protected]).
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