Cidade aberta, cidade alerta

23 de junho de 2026

Terminei recentemente a leitura de um daqueles romances que não entendo como ainda não havia lido. Estou falando de “Cidade aberta”, do nigeriano-americano Teju Cole, narrado por um residente de psiquiatria que tem o hábito de se perder em longas caminhadas por Nova York após seu trabalho no hospital.

As caminhadas inspiram não apenas observações da sempre intrigante paisagem da metrópole, mas também reflexões de todo tipo, passando por infância, imigração, racismo, história, filosofia, música e literatura.

[Descobri também uma história bem interessante envolvendo o próprio Teju Cole, que, além de escritor, é fotógrafo. Em 2015 ele veio para São Paulo e percorreu o terraço de diversos edifícios no centro em busca do local exato de onde René Burri havia feito a famosa fotografia “Men on a Rooftop”].

Para quem gosta de urbanismo, o termo “cidade aberta” remete imediatamente à valorização dos espaços públicos, diversidade e interação social (elementos bastante presentes em Manhattan), contrapondo-se, por exemplo, a condomínios fechados e segregação socioespacial.

“Cidade aberta”, porém, em contexto de guerra, também designa uma cidade que renuncia a esforços defensivos para evitar sua destruição total, garantindo com isso uma ocupação pacífica, de forma a proteger a população e o patrimônio histórico.

É triste pensar como São Paulo parece não se enquadrar em nenhum desses dois conceitos de “cidade aberta”. Em termos urbanísticos, trata-se de uma cidade segregada, de espaços públicos negligenciados, de preferência da elite pelos espaços privados. É uma cidade de grades, muros altos, arames farpados, cercas eletrificadas, condomínios fechados; de shoppings centers cheios e ruas vazias; de muitos congestionamentos e pouca caminhabilidade.

Vivemos em uma espécie de guerra constante, embora não haja uma ameaça externa. É uma guerra da população contra a sua própria cidade. Da cidade contra sua própria população. Poluição, pichação, sujeira, furtos, roubos, assaltos, patrimônio histórico em deterioração, apesar dos cada vez maiores esforços defensivos. Que tipo de conceito se aplicaria a uma cidade como essa?

Talvez por viver aqui, “cidade aberta” me remeta imediatamente à “cidade alerta”. E “Cidade Alerta”, para quem não sabe (vivendo no Brasil, duvido que alguém não saiba) é um telejornal policial com reportagens sensacionalistas, em que a violência urbana está sempre em destaque. Não me parece exagero dizer que ele e seus congêneres colaboram bastante para a imagem que grande parte da população paulistana tem da sua própria cidade.

Ainda que esse tipo de telejornal, é claro, não invente as notícias (de fato o problema da violência é grave), ele alimenta uma percepção distorcida da realidade, amplificando os fatos, gerando com isso ainda mais medo e sensação de insegurança (para se ter uma ideia, no imaginário de muitos colegas que não frequentam o centro de São Paulo, todo o centro é uma enorme cracolândia, o que nunca foi verdade).

Esse medo e sensação de insegurança excessivos têm graves consequências para a cidade, já que resultam em cada vez mais grades, muros altos, cercas eletrificadas, arames farpados, câmeras de vigilância, esvaziamento dos espaços públicos, preferência pelos automóveis, fatores estes que retroalimentam o medo e a sensação de insegurança, em um verdadeiro círculo vicioso.

Pois fiz uma rápida pesquisa aqui e não encontrei qualquer definição urbanística formal ou consolidada para o termo “cidade alerta”. O conceito, em oposição a “cidade aberta”, me parece perfeito para definir uma cidade como São Paulo.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

Compartilhar:

Economista pela FEA-USP, mestre em economia pela EESP-FGV e tem mais de 20 anos de experiência na área de pesquisas e estudos econômicos. Mora em São Paulo e caminhar pela cidade é um de seus hobbies favoritos ([email protected]).
VER MAIS COLUNAS