Cerdá e Haussmann

23 de abril de 2026

A divergência entre o urbanismo europeu compacto e o americano disperso revela escolhas políticas e econômicas profundas, não simplesmente diferenças estéticas ou técnicas. Aqui analisamos como dois planos icônicos moldaram cidades densas e como a América optou por caminhos inversos.

Ildefonso Cerdá, engenheiro catalão, concebeu em 1854 um modelo de expansão para a cidade de Barcelona que respondesse simultaneamente a três demandas: crescimento populacional, infraestrutura sanitária adequada e vitalidade urbana contínua.

O plano compreendia uma malha ortogonal de quadras padronizadas (113 X 113 metros), com vias de 20, 30 e 60 metros de largura. A altura máxima das edificações foi limitada a 16 metros, com uma ocupação perimetral em até 2 ou 3 lados da quadra. Para terminar, uma ocupação máxima de ⅔ dos lotes para as construções (⅓ liberado para jardins e espaços abertos).

Os edifícios alinhados pelo perímetro dos lotes proporcionaram centros das quadras desocupados, viabilizando ventilação natural, iluminação direta e acesso público a jardins. O plano original previa até 67.000 m² de área construída, criando um cenário homogêneo.

Com uma visão distinta da de Cerdá, o Barão Haussmann, responsável pelas feições conhecidas de Paris, perseguia outros objetivos: facilitar manobras militares, modernizar higiene urbana, reorganizar socialmente a cidade e criar símbolos de poder administrativo, com a criação de bulevares radiais e circulares substituindo o tecido medieval.

Objetivos diferentes, mas abordagens semelhantes: gabarito limitado a 5 ou 6 andares, fachadas padronizadas por um catálogo, alinhamento pelo perímetros dos lotes, criando pátios interiores de ventilação, mesmo com quarteirões irregulares em medida e formato. O modelo (gabarito e construção pelo alinhamento das calçadas) resulta em densidades excepcionais, superiores a 20 mil habitantes por km².

A um oceano de distância, as Américas seguiram um caminho diferente, e o século 20 vê a adoção do zoneamento enquanto medida de segregação e controle, privilegiando bairros exclusivamente residenciais e unifamiliares, com casas isoladas em lotes grandes, sem comércio próximo e com dependência total de automóvel.

O resultado são densidades inferiores a 2 mil habitantes por km², e cidades absurdamente espalhadas, consumindo território, recursos naturais e ampliando incrivelmente os custos com infraestrutura. Na prática, isso mantém elevados os preços de imóveis e segrega populações para áreas distantes.

Se a coisa é ruim nos Estados Unidos, no Brasil pode ser ainda pior, apresentando um sistema baseado em zoneamentos ainda mais rígidos e um sistema de afastamentos progressivos com baixíssimo aproveitamento dos lotes.

Alain Bertaud (e outros estudiosos com apreço por dados e pela realidade) observou que locais com zoneamento mais rígido (exclusivamente residencial ou comercial) contribuíram para o encarecimento da terra urbana, com o congelamento da capacidade construtiva e a redução do dinamismo econômico local.

Cerdá e Haussmann não inventaram a densidade, mas desenvolveram modelos onde a alta densidade permite cidades mais compactas, com mais vitalidade e menor custo de implantação e manutenção da infraestrutura urbana, bem como menor amplitude e custo para o sistema de transporte público, boa ambiência pela baixa altimetria e homogeneidade do cenário.

A escolha americana não foi técnica. Foi política. A manutenção do modelo não é política, é descolamento da realidade, negação dos dados e ignorância, muita ignorância.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteto e Urbanista, sócio da incorporadora CASAMIRADOR e fundador do INSTITUTO CALÇADA. Acredita que as cidades são a coisa mais inteligente que a humanidade já criou. ([email protected])
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