As cidades brasileiras passaram as últimas décadas desenhando o adensamento como linhas sobre o mapa.
Ao longo de corredores urbanos, avenidas estruturais e eixos de transporte, consolidou-se um modelo relativamente claro de verticalização. Quanto mais próximo do eixo, maior o potencial construtivo. Em teoria, a lógica parece eficiente. Concentrar moradia, empregos e serviços junto à infraestrutura existente reduz deslocamentos e aproxima a cidade do transporte coletivo.
A questão é que, na prática, muitos desses eixos acabam produzindo uma espécie de “avenida infinita”.
Sequências contínuas de edifícios altos passam a ocupar longos trechos urbanos relativamente homogêneos. A intensidade da cidade se concentra em uma única linha, enquanto as quadras imediatamente atrás permanecem com baixa integração urbana. Em muitos casos, cria-se densidade construtiva sem necessariamente produzir centralidade urbana.
Talvez o ponto não seja questionar o adensamento ao longo dos eixos, mas a forma como ele vem sendo distribuído espacialmente.
Enquanto o modelo linear organiza a verticalização ao longo de uma faixa contínua, outras configurações espaciais concentram maior intensidade urbana em torno de pontos específicos de mobilidade. Estações de metrô, terminais e conexões estruturais deixam de funcionar apenas como pontos de passagem e passam a estruturar centralidades completas.
Nesses casos, o adensamento deixa de seguir apenas uma avenida e passa a ocupar diversas quadras ao redor desses pontos, formando áreas de intensidade radiais. O resultado urbano costuma ser bastante diferente.
Em vez de uma única sequência linear de edifícios altos, surgem múltiplos percursos, diferentes aproximações e transições graduais de escala. A caminhabilidade deixa de acontecer apenas sobre um eixo principal e passa a se espalhar em várias direções. O comércio ganha profundidade urbana. A experiência da cidade se torna menos repetitiva.
Em muitos casos, diferentes áreas podem atingir densidades semelhantes, mas produzir experiências urbanas completamente distintas.
O arquiteto e urbanista Gordon Cullen tratava essa experiência da cidade como uma sequência espacial. A paisagem urbana não seria percebida apenas como forma construída, mas como uma sucessão de compressões, aberturas, perspectivas e descobertas ao longo do percurso.
Talvez seja justamente isso que muitos corredores urbanos excessivamente lineares acabam perdendo. Quando a cidade passa a operar apenas como uma longa faixa de adensamento contínuo, parte da complexidade espacial urbana desaparece junto.
Isso não significa abandonar eixos estruturais. Eles continuam fundamentais para organizar crescimento, mobilidade e infraestrutura. Mas talvez seja necessário reconhecer que transporte linear não exige, necessariamente, urbanidade linear.
A cidade dificilmente se organiza a partir de uma única direção. E a intensidade urbana raramente se distribui de forma linear.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.