Nem toda cidade nasceu igual ou movida pelas mesmas forças e motivações. Na Europa, em especial, é relativamente fácil identificar, dentre as cidades, as que nasceram como enclaves protegidos e as que nasceram como entrepostos comerciais.
Por enclaves, temos as cidades-estado italianas e vilas fortificadas europeias (como os burgos escoceses ou alemães) como referência. Em sua maioria, foram originadas pela ocupação do entorno imediato de castelos pertencentes a uma família, uma dinastia ou um clã, ampliando o território com moradias, comércio, feiras, edifícios religiosos, sedes das guildas e toda a sorte de infraestrutura, serviços e funções.
Elas cresceram espontaneamente, bastante compactas, orientadas e em função de um ponto focal: o castelo. Essas, muitas vezes, estão em topos de morros, baías escondidas, locais de acesso complexo (ou controlável), enfim, locais estrategicamente escolhidos exatamente pela dificuldade de acesso e ataque, visando, sobretudo, proteção e segurança.
Outras cidades nasceram a partir de pequenos entrepostos nas rotas de comércio, normalmente em locais bastante acessíveis, sempre que possível planos e servidos por água, à beira de rios relevantes. Inicialmente criados como locais de descanso, serviços relacionados ao comércio e às viagens, com o tempo expandem a oferta e configuram-se como centros comerciais, e não mais — somente — um local de passagem e descanso. De um caráter transitório, com predomínio da população flutuante, tornam-se lugares propriamente ditos, com a população fixa determinando o vigor e o crescimento.
Não é regra geral, claro, mas é possível perceber, no desenho urbano dos núcleos originais, a gênese criadora de cada cidade, influenciando a ocupação, o traçado dos caminhos, a localização dos centros cívicos e religiosos.
E é possível compreender, também, a dificuldade que várias dessas cidades tiveram para se expandir e evoluir ao longo dos séculos, exacerbando a importância e o quão determinante foi a geografia escolhida para o núcleo original.
Muitos séculos depois, não é difícil intuir que as cidades criadas nas rotas comerciais, em locais de fácil acesso, mais planas, servidas por rios importantes e, em última instância, em sítios escolhidos, deram origem às maiores e mais importantes metrópoles dos séculos 20 e 21, ao passo que uma boa parte das cidades nascidas como enclaves prosperaram e se desenvolveram até um determinado ponto, talvez até o limite em que uma geografia complexa tenha tornado o desenvolvimento igualmente complexo, caro e limitante.
E as cidades brasileiras? Em “Raízes do Brasil“, Sérgio Buarque de Holanda salienta a diferença “urbanística” entre a colonização portuguesa e a espanhola. O espanhol era o “ladrilhador”, que criava cidades planejadas, em formato de tabuleiro de xadrez, focadas na dominação e fundação de uma civilização definitiva. O português era o “semeador”, optando por feitorias e cidades orgânicas, tortuosas, adaptadas à topografia, espalhadas ao longo da costa apenas para extração e comércio rápido.
Tendo feito escolhas ruins, restou dividir a cidade em duas, a “cidade alta”, abrigando o poder administrativo, militar e religioso (proteção), e a cidade baixa, ao nível do mar, focada no porto, no comércio e no fluxo de mercadorias. Essa dualidade pode ser vista em Olinda, Porto Seguro e na transferência do Rio de Janeiro para o Morro do Castelo.
Mais sorte tiveram cidades criadas mais a frente, como São Paulo (Tietê), Belém (Guamá/Pará) e Manaus (Rio Negro).
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.