Bilbao: três encontros com uma cidade

7 de agosto de 2026

Conforme acumulamos “milhagem” em nossa trajetória profissional, às vezes algumas coincidências curiosas se apresentam. Nos fins do século 20, quando trabalhava na Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba, recebemos uma delegação do País Basco que estava em missão técnica no Brasil. Na época, estávamos revisando o Plano de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana de Curitiba e me lembro de ter ficado impressionada com a visão estratégica de transformação ancorada nas cidades de Bilbao, San Sebastián e Vitória-Gasteiz, pela sua ousadia, abrangência e profundidade. Além dos paralelos possíveis entre aquele processo e um planejamento de abrangência regional como o nosso, a minha curiosidade foi também despertada porque tinha em minha memória eventos associados ao movimento separatista ETA, cuja sombra ainda pude perceber em uma breve passagem por Bilbao em 1993.

Em fins de 2002, quando o efeito Guggenheim fazia manchetes nas discussões sobre urbanismo, tive nova oportunidade de visitar a cidade. Dessa vez encontrei uma atmosfera urbana efervescente, marcada por ícones arquitetônicos, como os “fosteritos” e o Museu Guggenheim, e também empenhada em valorizar sua memória construída, como os vitrais colossais da Estação de Abando e o seu casco histórico

Em 2024, Curitiba e o Jaime foram homenageados pela Bilbao Metropoli-30 — associação público-privada dedicada ao planejamento estratégico e à regeneração urbana da metrópole basca — com o prêmio Urban Pioneers, na edição inaugural do The Bay Awards. Durante o processo de candidatura, tive contato com a diretora-geral da associação que, em maio deste ano, indicou meu nome à eAtlantic Fundazioa para participar de um fórum de diálogo entre a Europa e o Sul Global sob uma perspectiva subestatal. 

Em preparação para a viagem, fiz algumas pesquisas e “passeios”pelo Google Earth. Foi gratificante perceber quantos novos espaços culturais e artísticos haviam passado a integrar a paisagem de Bilbao, assim como avanços em uma mobilidade multimodal abrangente e na oferta de produtos turísticos. Nos dias que se passaram nesse terceiro encontro, a soma de conversas com interlocutores profundamente conhecedores da história e das questões urbanas da região, de experiências in loco, de conversas despretenciosas com taxistas, funcionários do hotel e do comércio, e da observação do perfil diverso dos visitantes me permitiu compreender a transformação de Bilbao com muito mais profundidade.

Tracei essa linha temporal pessoal com Bilbao para enfatizar que o processo de transformação qualitativa da cidade e da região foi uma empreitada construída ao longo de décadas. 

Foi a passagem do profundo colapso econômico provocado pela crise das bases produtivas regionais, ancoradas na indústria pesada da década de 1970, para um panorama contemporâneo próspero, sustentado por atividades de alto valor agregado, forte conteúdo tecnológico, cultura e serviços avançados; da catástrofe provocada pelas cheias de 1983 — que transformaram as águas acolhedoras do estuário formado pela Ría del Nervión-Ibaizabal, eixo estruturador da cidade e conexão com o Golfo da Biscaia, em uma torrente que ceifou vidas e devastou as infraestruturas produtivas instaladas ao longo de suas margens — para a regeneração dessas mesmas áreas, hoje ocupadas por equipamentos culturais, novos espaços públicos, infraestrutura verde e sistemas de mobilidade; de acordos políticos capazes de compatibilizar as demandas do governo central espanhol com a forte identidade cultural basca e sua tradição de autonomia administrativa para um arranjo institucional e financeiro inovador, capaz de articular diferentes níveis de governo, iniciativa privada e sociedade civil em torno de políticas públicas que transcendem ciclos eleitorais; e, finalmente, a passagem de uma cidade que durante décadas voltou as costas para sua Ría para outra que fez da água e suas margens um grande eixo de convivência e desenvolvimento.

Bilbao é uma das experiências mais estudadas de regeneração urbana contemporânea. Sob a perspectiva da adaptação das cidades às mudanças climáticas e da construção de sua resiliência, a metrópole basca demonstra que calamidades, por si sós, não produzem transformação. Elas apenas expõem vulnerabilidades existentes. A mudança positiva ocorre quando uma sociedade desenvolve capacidade institucional para interpretar a crise, formular uma visão de futuro, coordenar investimentos e sustentar políticas públicas coerentes ao longo do tempo.

Bilbao não se transformou apenas porque sofreu uma enchente ou porque construiu um edifício icônico. Transformou-se porque, diante de uma sucessão de crises que revelou os limites do modelo anterior, conseguiu construir uma nova forma de pensar, planejar e governar sua realidade. 

Por Ariadne dos Santos Daher

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Com base na experiência de Jaime Lerner e das equipes que com ele trabalharam, o Instituto Jaime Lerner almeja despertar uma consciência positiva sobre o potencial transformador das cidades e seu desenvolvimento sustentável, inclusivo e criativo. ([email protected])
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