Balneário Camboriú é o tipo de cidade que não admite neutralidade. Ame-a ou odeie-a. Para uns, laboratório urbano de uma nova geração de arranha-céus brasileiros; para outros, exagero vertical à beira-mar. O fato é que poucas cidades brasileiras revisam suas regras em meio à forte demanda imobiliária. E B.C. fez isso.
Após quase duas décadas, a cidade atualizou seu Plano Diretor e, sobretudo, seu microzoneamento – o instrumento que molda a forma urbana. Não foi ruptura, mas ajuste de percurso.
O urbanismo vertical consolidado na área central, marcado por densidade construtiva e vida cotidiana a pé, permanece. A centralidade continua ativa, mista, caminhável. A identidade que projetou a cidade nacionalmente não foi desmontada. Ao contrário, foi tomada como base.
A principal inflexão está na redistribuição do crescimento. Mais potencial construtivo foi direcionado para eixos e corredores estruturantes, com incentivo claro ao uso misto – residencial e escritórios. A cidade optou por concentrar onde faz sentido, vinculando à infraestrutura por meio da outorga onerosa. Em vez de restringir, ampliou potencial para financiar mobilidade, saneamento e qualificação urbana.
Um dos pontos mais controversos surge aqui: B.C. historicamente produziu apartamentos amplos, de alto padrão. Agora passa a permitir unidades menores, na faixa dos 40 e 75m², especialmente nesses eixos. Não é detalhe tipológico. É mudança de modelo. Pode significar mais moradores permanentes e maior diversidade de perfis vivendo próximos de onde a cidade pulsa.
Outra alteração relevante está na substituição da tipologia “caixote” de nove pavimentos, que vinha consolidando bairros não-centrais, por edifícios mais esbeltos e altos. A paisagem irá mudar, mas principalmente mudará a relação volumétrica com a quadra.
E falando em quadra, talvez um dos ganhos mais interessantes esteja nas longas extensões urbanas – muitas com 200 ou 300 metros. A possibilidade de fruições públicas conectando duas ruas paralelas, somada ao incentivo de alargamento de calçadas – alargamento de calçadas, não recuos de jardim –, pode aumentar a permeabilidade urbana e qualificar a experiência do pedestre. Se bem executado, é um avanço real.
Sim, não é um plano perfeito. Ainda opera sob a ideia implícita de uma “cidade completa”, aquela projeção onde todos os lotes atingem seu potencial máximo, algo que raramente acontece na prática. No entanto, qual cidade brasileira já estaria disposta a largar essa lógica que vem moldando-as há mais de 60 anos?
O movimento é relevante. Balneário Camboriú não está negando sua vocação vertical. Está tentando organizá-la.
O que ainda falta? Uma camada mais explícita de diretrizes para melhor desempenho urbano, critérios de qualidade ambiental, conforto, transições de escala, relação com o espaço público e entre edifícios. Conceitos que dariam um tom mais sofisticado ao planejamento e que encaixariam perfeitamente com o modelo B.C. de ser. Mas a regulação segue predominantemente reativa.
Se a cidade já assumiu sua vocação vertical e agora começa a ajustar suas regras, talvez o próximo passo seja ainda mais ambicioso, planejar-se não como exceção sazonal, mas como cidade de moradia em escala permanente. Dimensionar infraestrutura, mobilidade e espaço público para sua população de pico, e não tratá-la como distorção temporária, pode ser a chave para consolidar de vez sua maturidade urbana. A altura dos edifícios já colocou B.C. no mapa. A qualidade estrutural do planejamento pode mantê-la lá.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.