Austin decidiu crescer para dentro

22 de abril de 2026

Austin não está apenas crescendo. Está corrigindo um modelo que parou de funcionar. 

Há poucas semanas, participei do CVU Americas Conference, no Texas. O debate girava em torno de densidade, habitabilidade e tecnologia. Mas o que ficou mais evidente não foi o tema anunciado. Foi a cidade que nos recebeu. 

Entre 2015 e 2025, Austin registrou um crescimento de 377% no número de edifícios com mais de 100 metros de altura. Não se trata apenas de verticalização. É uma mudança de direção. 

Durante décadas, Austin cresceu para os lados, como grande parte das cidades americanas. Espraiamento horizontal, baixa densidade e dependência do automóvel. Esse modelo funcionou enquanto havia espaço e enquanto o custo de expandir era baixo. Hoje, não há nem uma coisa nem outra. O resultado é tráfego saturado e preços habitacionais historicamente altos. 

A resposta não veio em forma de contenção, mas de reorganização. Austin decidiu crescer para dentro.

O centro da cidade concentra mais de US$ 20 bilhões em investimentos em infraestrutura, distribuídos em uma série de projetos simultâneos. O ambicioso projeto para rodovia expressa I-35 deve liberar áreas significativas para espaço público no coração da cidade. O Waterloo Greenway conecta parques ao longo de um córrego revitalizado. A Congress Avenue passa por um redesenho completo. Soma-se a isso um novo centro de convenções e a conclusão do Waterline, que, com 331 metros, será o edifício mais alto do Texas. 

Não são projeto isolados. É uma reestruturação deliberada do centro. 

Para dar coerência a esse movimento, a Downtown Austin Alliance opera com uma estratégia clara, articulando espaço público, uso do solo, mobilidade e gestão urbana. O objetivo é transformar o centro em lugar mais habitável, ativo e conectado, e não apenas um polo de trabalho. 

Mas caminhar por Downtown revela que a transição está longe de ser completa. 

Austin ainda é uma cidade moldada pelo automóvel. Muito dos novos edifícios incorporam 10 ou até 12 pavimentos inteiros de estacionamento. Sem exagero, é bem evidente. A contradição entre o modelo herdado e a cidade que se quer construir aparece na própria arquitetura. 

Os desequilíbrios também são evidentes. A taxa de vacância de escritórios chega a 22%, a mais alta desde 2000. Dos mais de 130 mil trabalhadores que circulam pelo centro, apenas 15 mil residem ali. O Downtown ainda funciona mais como destino do que como lugar de permanência. 

É justamente nesse ponto que a mudança começa a produzir efeito.

Entre 2015 e 2024, Austin adicionou cerca de 120 mil novas unidades habitacionais, um crescimento de 30%, mais de três vezes a média nacional. O impacto foi que o aluguel mediano caiu 16% entre 2021 e 2026. Em um contexto onde a maior parte das cidades enfrenta escassez e aumento de preços, Austin segue na direção oposta. Não por conter o crescimento, mas por ampliar a oferta. 

Austin mudou de direção, mas a transição ainda está em curso. Cresce para dentro, combinando investimento urbano e produção habitacional com edifícios altos, enquanto ainda carrega estruturas de uma cidade para o automóvel. É nesse intervalo – entre o modelo que se esgota e o que ainda está se formando – que seu futuro está sendo definido.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Mestre em Arquitetura e Urbanismo (UniRitter/Mackenzie) e Doutor em Arquitetura (UFRGS). Membro do Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) e líder do CTBUH Brazil Chapter. ([email protected])
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