No livro seminal “Cidades e a riqueza das nações: princípios da vida econômica”, Jane Jacobs sublinhava que as cidades, e não as nações, eram as fontes geradoras da prosperidade econômica. A percepção é compartilhada pelo renomado economista urbano Edward Glaeser, que vai além ao exaltar o “triunfo da cidade”, apontando o papel vital da urbanização como motor do desenvolvimento e da socialização.
O que está por trás da visão desses célebres especialistas? A vitalidade e a admirável capacidade de reinvenção das cidades. Isso se deve ao fato de elas não só estarem na origem das inovações como também servirem de ímãs para atrair pessoas e empresas.
Pode-se dizer que a diversidade social e econômica é uma vantagem significativa das cidades na medida em que favorece a performance econômica e a competitividade. No entanto, o combustível para o seu dinamismo não é apenas a concentração de empresas, mas sobretudo pessoas talentosas e criativas — ganha relevo a proximidade física, que facilita a geração e a troca de ideias, informações e conhecimento, alimentando o processo inovativo e o dinamismo dos centros urbanos.
Em face desse potencial das cidades, qual seria então a contribuição das universidades? Numa economia mundial crescentemente baseada no conhecimento e regida cada vez mais pela inovação e competição, as universidades são atores indispensáveis para o desenvolvimento das cidades e regiões onde estão localizadas.
Dentre as várias contribuições que as universidades podem dar ao desenvolvimento econômico urbano e regional, pode-se destacar quatro delas. A primeira é a formação de capital humano, uma de suas principais missões. A literatura econômica tem sido pródiga ao ressaltar a educação como um dos fatores responsáveis pela prosperidade de indivíduos e economias. A concentração de pessoas qualificadas não só estimula a inovação como também é condição indispensável para que cidades e regiões se reinventem e cresçam a longo prazo.
A segunda contribuição são os spin-offs acadêmicos, associados à proximidade geográfica. Trata-se de canais valiosos para a transferência de competências, dos resultados de pesquisas e dos conhecimentos e tecnologias desenvolvidos dentro das universidades para as empresas e sociedade em geral. Os seus impactos positivos abrangem desde a geração de empregos até a disseminação dos transbordamentos (spillovers) tecnológicos que estimulam o surgimento de novos ecossistemas de inovação.
A terceira e a quarta contribuições são também canais úteis de transferência de tecnologia: as relações universidade-empresa e o patenteamento e o licenciamento das invenções. Ambos são meios de interação das universidades com o setor produtivo e com a sociedade em geral. Mais do que retratar dinâmicas relevantes das universidades, eles são elementos-chave dos sistemas regionais de inovação, contribuindo para desenvolver processos de inovação nas empresas e, principalmente, para estimular as economias urbana e regional.
Embora importante, a presença de universidades nas cidades e regiões não é garantia de desenvolvimento econômico. Os formuladores de políticas públicas devem ter plena consciência de que as universidades são heterogêneas, de modo a tirar melhor proveito de sua presença na região. Em geral, a contribuição delas para o desenvolvimento urbano e regional é maior quando são parte de um amplo ecossistema de inovação. Afinal, como Jane Jacobs nos ensinou, cidades vitais são aquelas que conseguem transformar capital humano e inovação em prosperidade compartilhada.
Maurício Serra é pesquisador principal do FGV Cidades e professor livre-docente do Instituto de Economia da Unicamp (IE/Unicamp). Atua nas áreas de economia regional e urbana, economia da inovação, geografia econômica e sistemas e ecossistemas regionais de inovação.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.