Trazer mais verde para a cidade é um investimento inquestionável
Um dos objetivos da minha vinda a Paris era conhecer as iniciativas que trouxeram mais verde para a cidade. Eu tinha ouvido falar das florestas urbanas e vi várias imagens na internet sobre espaços públicos que sofreram uma grande transformação em sua configuração pela introdução de vegetação densa.
Estudando o site da prefeitura, descobri mais sobre a iniciativa das florestas urbanas, e que elas são quatro, até agora. Visitei todas e fiquei com algumas dúvidas que pude elucidar conversando com um arquiteto paisagista que me recebeu muito bem no Atelier Parisiense de Urbanismo/APUR. Recomendo muitíssimo que entre na página deles e veja a abrangência de temas, a atualidade e o nível das suas publicações.
A ideia da floresta urbana é oferecer mais umidade para a cidade, refrescando o entorno e ajudando a diminuir o efeito de ilha de calor, trazer mais biodiversidade para o meio urbano e contribuir para melhorar a qualidade do ar. Ela seria materializada com a inserção de uma área generosa vegetada com espécies nativas de árvores e arbustos de diferentes idades e alturas, distribuídas ou mescladas de forma que, funcionando como um ecossistema florestal, pudesse evoluir e se manter de forma autônoma, sem necessitar de muita intervenção humana. Não era para ser um parque, mas um lugar mais fechado, como um grande canteiro denso. No entanto, o próprio arquiteto da APUR disse que há certa controvérsia a respeito dessa denominação e descrição, porque as características das quatro florestas urbanas de Paris variam muito, como constatei.
Uma das mais conhecidas é a da praça em frente ao Hôtel de Ville, o prédio da prefeitura. Numa grande praça seca, que já foi um espaço quase inteiramente dedicado aos carros, criou-se dois grandes canteiros verdes, com árvores já adultas, que vieram de viveiros especializados da própria França, mas também da Holanda e da Alemanha. Nem toda a área da praça da prefeitura foi ocupada: uma parte central ficou ainda seca, para acolher eventos e manifestações. Aqui, então, numa área impermeabilizada, acrescentou-se vegetação, com redução do espaço dos pedestres.
A outra também conhecida é a da Place de Catalogne, que de praça não tinha muita coisa: era uma grande rotatória impermeabilizada com uma fonte no meio, que fazia parte de um projeto horroroso do Ricardo Bofill nos anos 1980 para uma região do 14º arrondissement. Ela não só recebeu densa vegetação, mas foi também remodelada para deixar de ser uma rotatória: metade de seu perímetro se esticou até grudar nas calçadas das quadras adjacentes, fazendo os carros perderem espaço. Aqui houve reestruturação viária, redução do espaço dos carros, ampliação do espaço para os pedestres e acréscimo de vegetação numa área impermeabilizada.
A Place du Colonel Fabien também era uma rotatória e deixou de ser, tendo 1/3 de seu perímetro sido incorporado a quadras adjacentes, e tendo sua área sido ampliada a partir da redução da largura da via circundante. Diferente das duas anteriores, o local já era arborizado. Portanto, aqui houve, além da reestruturação viária, com ampliação de área para os pedestres e redução do espaço dos carros, adensamento e diversificação da vegetação já existente.
A última que visitei foi a do Bois de Charonne, que fica no terreno de uma antiga linha ferroviária que era utilizado como estacionamento de ônibus. Diferente das três outras, ela se situa no que era um vazio urbano: nem carros nem pedestres usavam o lugar, que é bastante segregado, delimitado por uma grade de um lado e por um parque já existente do outro (na verdade não entendi por que simplesmente não ampliaram o parque). De todos é o que tem aspecto mais natural, e que vai demorar mais para trazer o efeito desejado, já que não levaram plantas adultas para lá.
Adorei conhecer todas elas, especialmente as que aproveitaram para redesenhar o espaço viário em sua implantação. É impressionante o impacto positivo ao redor. Não achei ainda números específicos sobre a qualidade do ar e o conforto ambiental antes e depois de sua implantação, mas desconfio que validarão esse investimento – alto, mas extremamente necessário – na qualidade ambiental urbana e na saúde da população.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.