As cidades que nos tiram do sério

30 de outubro de 2026

“Quero fugir de São Paulo. Comprar uma casa no interior. Meu tempo aqui já deu”, ouvi de Dona Ângela, moradora da Favela do Sapé no começo do ano. Embora eu desconheça as razões dela, posso imaginar algumas possibilidades.

Viver em uma favela implica em muitos casos passar por precariedades habitacionais, pela discriminação e por uma ação seletiva e insuficiente do Estado. As favelas, como sabemos, são assentamentos tipicamente urbanos. Logo, são carregadas desses e de outros elementos essencialmente oriundos das cidades em geral grandes, que nos tiram do sério, nos estressam e nos geram ansiedade. Cito alguns.

A violência e a sensação de insegurança estão presentes em diversas cidades do Brasil. Nelas, costuma dominar o medo de sair à noite, de tirar o celular do bolso na rua, de sair do banco e ser assaltado ou de viajar e deixar a casa vulnerável a assaltantes. Também é frequente o medo entre jovens periféricos e de favelas, que podem se ver em meio a tiroteios, a aliciamento do tráfico e a abusos de autoridades.

Outro fenômeno que irrita, pelo menos a mim: a pressa e o egoísmo de muitas pessoas no transporte público. Quem anda de ônibus e trem com frequência já deve ter se espremido em um assento ao lado do qual outro passageiro estende os braços como se estivesse no sofá da sala. Ou já deve ter dado de frente com pessoas aglomeradas nas portas do metrô de modo a impedirem a saída dos passageiros antes de poderem ingressar na composição.

Para quem está mais habituado a dirigir, o problema é outro. O congestionamento de todo dia é um duro teste de paciência. E costumamos reprovar.

Temos então: precariedades habitacionais, discriminação, falta de serviços públicos, medo de sair à rua, a falta de educação de muitos no transporte, o estresse e a falta de paciência de outros tantos nas ruas e avenidas. Ora, por que então ainda moramos na cidade grande?

Aí é que está. Cidades são polos de oportunidades econômicas, como nos diz Edward Glaeser em seu famoso livro “O triunfo da cidade”, ou como analisa Janice Perlman ao se debruçar sobre o Rio de Janeiro dos anos 1970. Nesse contexto, favelas e outros assentamentos de baixa renda revelam, sim, precariedades, mas também sinalizam o potencial urbano de prosperidade, o qual muitos migrantes que se instalam nos centros urbanos buscam.

Mas as cidades não são só isso. São lugares de socialização e de construção de relações. Nós, seres humanos, gostamos de estar entre outras pessoas. E é justamente isso que vemos em São Paulo, Nova York, Tóquio ou Hong Kong. É fato que algumas cidades parecem mais convidativas às pessoas do que outras, como nos mostra o arquiteto dinamarquês Jan Gehl em seu livro “Cidades para Pessoas”. Ruas caminháveis, com pessoas a todo tempo nas calçadas e inconscientemente vigiando o movimento e diminuindo as sensações de insegurança e desconexão são realidades vistas em alguns lugares mundo afora.

Feitas todas essas considerações, pergunto: as vantagens da vida nas cidades superam as desvantagens? É por isso que o mundo é cada vez mais urbano?

Termino com mais duas considerações. Urbanidade também significa civilidade. Embora nos falte em grande medida, essa relação não pode ser esquecida nem deixada de lado. Por fim, voltando à Dona Ângela, cada um tem suas razões para querer uma vida melhor em lugares menos urbanos. Não nos cabe julgar quem leva vidas tão diferentes das nossas, com dores e angústias que muitas vezes não conhecemos ou não experimentamos.

Cabe, sim, olharmos para as cidades onde vivemos com um olhar clínico. O que pode melhorar? Como podemos contribuir com isso?

Trabalhando juntos, podemos construir cidades melhores. Alguns dirão que isso é uma utopia. Bem, isso já é assunto para outro texto…

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Doutor em Planejamento Urbano e Regional pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Arquiteto e urbanista formado na FAUUSP, cursou o mestrado em Planejamento Urbano pela Universidade de Columbia (EUA). Lá, ganhou o prêmio Charles Abrams pela dissertação com o maior comprometimento com justiça social. Também trabalhou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo entre 2014 e 2016, com atuação na urbanização de sete favelas das zonas Sul e Oeste da cidade.
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