Altura e desempenho urbano, segundo o CVU

11 de fevereiro de 2026

O Vertical Urbanism Index 2025, divulgado recentemente pelo Council on Vertical Urbanism, traz uma contribuição relevante ao debate urbano. Em vez de perguntar “quão alto uma cidade constrói”, o relatório desloca o foco para algo mais estrutural: como ela organiza, ao longo do tempo, sua capacidade de absorver crescimento. 

Baseado na análise de 83 grandes aglomerações desde 1980, o estudo cruza volume construído, densidade real e condições de habitabilidade. A leitura conjunta dessas variáveis revela um padrão recorrente. Elas raramente evoluem de maneira coordenada e, quando se desencontram, os impactos sobre a vida urbana tendem a ser significativos. 

Um dos deslocamentos centrais do relatório está na forma como trata a verticalização. O foco deixa de ser métricas baseadas na contagem de edifícios acima de determinados limiares de altura e passa a ser o volume urbano acumulado. O que está em jogo não é a dimensão simbólica associada à altura, mas a capacidade efetivamente criada ao longo do tempo para abrigar moradia, trabalho e serviços. 

Na mesma linha, o relatório evita tratar densidade como um valor abstrato. Ao analisar a distribuição real da população sobre o território urbanizado, mostra que densidade pode expressar eficiência urbana, mas também indicar sobrecarga. Em muitos contextos, seu aumento decorre menos de planejamento e mais da compressão progressiva de pessoas em redes urbanas já tensionadas. 

O dado mais desconfortável é simples: nem verticalizar, nem adensar garantem, por si só, melhores cidades. Em muitas metrópoles, o crescimento populacional ocorre mais rápido do que a ampliação da capacidade construída e dos serviços públicos. Em outras, grandes volumes edificados resultam em expansão territorial, diluindo ganhos de densidade e reforçando padrões de espraiamento. 

Quando cidades como Singapura, Seul e Tóquio aparecem como exceções, o ponto central não está em um “modelo ideal” de verticalização. O que pesa é a capacidade institucional de coordenar crescimento, investimento público e regulação ao longo do tempo. Não é a altura que explica esses resultados, mas sistemas estáveis de planejamento, financiamento e gestão urbana.

Isso não significa que a verticalização seja um equívoco. Ao contrário. Quando articulada a políticas de uso do solo, transporte, infraestrutura e financiamento urbano, ela pode ampliar a capacidade da cidade, reduzir pressões territoriais e qualificar o uso do espaço. O problema surge quando é tratada como atalho, e não como parte de um projeto urbano consistente. 

Para o Brasil, essa leitura é direta. Nossos principais impasses urbanos raramente derivam da presença de edifícios altos, mas da forma como são inseridos no território. Eles nascem da fragmentação entre políticas de uso do solo, mobilidade, habitação e serviços. Sem coordenação entre essas dimensões, a verticalização tende a se tornar disputa pontual, em vez de instrumento efetivo de estruturação urbana. 

O Vertical Urbanism Index 2025 contribui ao evidenciar que desempenho urbano não é resultado direto da forma edificada ou da densidade isoladamente, mas da articulação entre essas dimensões ao longo do tempo. 

Em um contexto em que o debate público ainda se prende à altura dos edifícios, esse deslocamento talvez seja o aspecto mais relevante do relatório. Ele lembra que cidades não falham por crescerem para cima, mas por crescerem sem estrutura. 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Mestre em Arquitetura e Urbanismo (UniRitter/Mackenzie) e Doutor em Arquitetura (UFRGS). Membro do Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) e líder do CTBUH Brazil Chapter. ([email protected])
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