Nem sempre quem tem mais tempo para falar é quem tem mais a dizer.
Recentemente, o Governo do Distrito Federal (GDF) começou uma obra para melhorar a acessibilidade ao redor da tradicional Feira do Guará, que tem a sorte de ter uma estação de metrô exatamente em sua porta (o Guará é uma das regiões administrativas de Brasília. Eu sempre vou considerar Brasília como todo o DF, ok?). Criou e alargou calçadas, previu espaços de espera e recepção, colocou travessias elevadas, tudo na intenção de conduzir, com conforto e segurança, as pessoas das paradas de ônibus, da estação do metrô e dos estacionamentos até a feira. E vice-versa, claro.
Estive lá, ontem. Ainda não terminaram, mas está ficando muitíssimo melhor e mais acessível. Também vi o projeto. Onde antes não tinha calçada, agora tem; onde não se tinha vagas definidas para idosos e pessoas com deficiência, agora tem. Onde não havia trajetos claros com travessias evidentes e sinalizadas, agora tem. Onde se estacionava de qualquer jeito, agora fica mais difícil. Onde o pedestre tinha que andar no espaço do carro, agora não precisa mais: ele tem caminhos feitos para ele.
Para a materialização do projeto, foi necessária uma reorganização dos estacionamentos — obviamente todos públicos e gratuitos — com retirada de vagas, porque, vamos lembrar o princípio da impenetrabilidade da matéria: é preciso retirar espaço de carros para dar aos pedestres (ou seria melhor tirar espaços verdes, permeáveis e derrubar árvores para isso?). A área onde a feira se encontra, no entanto, é muito bem servida de estacionamentos, alguns um pouco mais distantes (até uns 350 metros), e o número de motoristas que vão poder parar literalmente na porta da feira vai diminuir bastante.
O Jornal do Guará fez uma reportagem com a seguinte manchete: “Mais uma obra absurda”. Cito um trecho:
“A história se repete, mesmo depois dos episódios da construção da ciclofaixa do Guará II, que provocou protestos dos moradores e motoristas até que o governo resolvesse interromper a obra. Mas o desgaste com a comunidade pela obra absurda da ciclofaixa não fez o governo aprender. Uma intervenção no estacionamento da Feira do Guará está retirando mais de 300 vagas de veículos para dar lugar a calçadas de mais de 8 metros de largura, sob o pretexto de melhorar a acessibilidade.”
(A primeira “obra absurda”, a ciclofaixa, gerou protestos porque, para acomodá-la, reduziu-se a largura da faixa de rolamento e, segundo o jornal, os moradores acharam que isso poderia aumentar os pontos de engarrafamento na via central. Acredito que os ciclistas não tenham participado dos protestos.)
Conversei com colegas, técnicos da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação/SEDUH, responsáveis pelo projeto. Eles estavam frustrados. Em linhas gerais, disseram que foram criticados por fazer aquilo que o mundo inteiro vem fazendo, e de que o Brasil precisa urgentemente: devolver a cidade às pessoas, criar infraestrutura digna, segura e generosa para a circulação e permanência dos pedestres. “Você sempre defende calçadas largas, Gabi… a gente fez, e as pessoas estão reclamando!”
Pois é. É importante que as pessoas tenham voz, mas é importante que TODAS as pessoas tenham voz. É preciso que se dê voz aos motoristas, mas, também e principalmente, aos pedestres, uma vez que as vagas são para poucos, e as calçadas são para todos. É preciso que se dê voz às pessoas que se vão sentir muito seguras dentro de um condomínio fechado, mas, também e principalmente, às pessoas que vão passar fora dele, ao longo de dezenas de metros estéreis de muros intermináveis em ruas inseguras. Em geral, as pessoas com menos recursos, contatos, dinheiro, tempo disponível, são as que menos conseguem se organizar para se fazerem ouvir. É preciso chamá-las para que possam falar.
Mas é importante também que os técnicos tenham voz. Mesmo que os princípios que regem o projeto estejam absolutamente condizentes com o pensamento contemporâneo sobre cidades humanas e resilientes, ou com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, é imprescindível ter números para mostrar, para respaldar tudo isso. Contar o fluxo de pedestres, levantar o uso dos estacionamentos e estudar sua rotatividade, mapear as atividades estacionárias, antes e depois do projeto implementado. Se com números já é difícil convencer, imagina sem.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.