A quê e a quem servem os rankings urbanos?

29 de maio de 2026

Nessa semana, São Paulo foi classificada como a 7ª cidade mais cultural do mundo pela revista britânica Time Out. Recentemente, a mesma revista considerou a Barra Funda como o 3º bairro mais cool do mundo. Botafogo, no Rio, não foi mal e ficou no 29º lugar. Você, paulistano ou carioca, está abrindo uma garrafa de champagne para comemorar esses resultados?

Ironias à parte, coloco as perguntas: para que servem classificações como essa? O que elas dizem e o que não revelam, afinal?

Veja bem: não estou questionando a metodologia desses tipos de levantamentos. Não a conheço a fundo e não é o que mais desperta a minha atenção.

Quando um ranking como esse é divulgado, o impacto é imediato. Meios de notícias e até sites oficiais reverberam os feitos. Muitos de nós, curiosos em busca de lugares bacanas, nos debruçamos sobre as listagens.

Mas toda classificação segue critérios que são estipulados de modo subjetivo e com algum objetivo por trás. Um apontamento sobre as cidades mais “culturais” do mundo pode ser uma boa sinalização para turistas em busca de destinos repletos de museus, ofertas de shows etc. Dizer que a Barra Funda e Botafogo são “cool” pode atrair clientes a restaurantes e bares locais e até inflar o aluguel de curta e longa temporada nessas regiões. Pode ser bom para estabelecimentos ligados à gastronomia, ao lazer e ao turismo.

Pode ser ruim para alguns moradores, que veem seus bairros ficarem mais caros e que veem o tecido urbano se modificar. Aqui, existe uma discussão maior: queremos estimular ou limitar o turismo urbano? Quem ganha e quem perde com áreas declaradas moderninhas e atrativas?

Não é possível cravar as respostas. Mas rankings como esses favorecem grupos interessados na promoção de certas localidades para um público muitas vezes externo.

E o que classificações como essa deixam de mostrar? Bairros e cidades bem posicionadas parecem muitas vezes ser maquiados em situações como essa. A vista de tirar o fôlego, os cafés descolados e as galerias imperdíveis são parte da história de regiões que muitas vezes convivem com problemas que toda cidade grande tem em maior e menor grau: criminalidade, congestionamento, alto custo de vida, desigualdades etc.

Rankings assim omitem certas realidades em prol de uma espécie de marketing urbano em que a competição dá o tom.

Não quero dizer que todo tipo de ranking urbano se enquadra nessa situação. Trabalhos como o Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo, ou o Atlas da Violência, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), cumprem objetivos distintos, dentre os quais orientar gestores públicos na identificação de questões que demandam políticas públicas e que pedem uma priorização de ações.

E pode haver conflitos de interesse. Comerciantes de Botafogo podem comemorar a colocação do bairro no ranking dos mais cool – como expresso, isso atrai visitantes –, mas tendem a se preocupar quando veem a posição do Rio de Janeiro em rankings de violência urbana – o que pode afastar turistas estrangeiros.

São muitas camadas e muitos interesses. E, antes que algozes levantem a possibilidade, já aviso: amo São Paulo, amo o Rio, adoro desbravar a Barra Funda e quando fui a Botafogo, achei incrível. Mas o mundo urbano não se resume a isso.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Doutor em Planejamento Urbano e Regional pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Arquiteto e urbanista formado na FAUUSP, cursou o mestrado em Planejamento Urbano pela Universidade de Columbia (EUA). Lá, ganhou o prêmio Charles Abrams pela dissertação com o maior comprometimento com justiça social. Também trabalhou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo entre 2014 e 2016, com atuação na urbanização de sete favelas das zonas Sul e Oeste da cidade.
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