“Projeto não se inicia no computador”. Uma frase cotidianamente dita e ouvida em cenários iniciais da vida acadêmica de um graduando de arquitetura e urbanismo. Em um primeiro momento, pode parecer meio ultrapassada. A explicação? Para que eu vou fazer no papel se eu já posso começar no computador? Ou até mesmo: no computador eu faço mais rápido, lá eu consigo “dar um Ctrl+Z”. Contudo, mesmo com altos níveis de experiência e agilidade em diversos softwares CAD, esse processo de criação computadorizado tem suas limitações.

Da minha experiência, sempre me causou perplexidade como a concepção do projeto à mão livre seria vista como muito complexa pelos colegas, ainda que respeitada. Complexa pela crença falha de que esse primeiro croqui tem que ser perfeito, logo, não faço. Receio de fazer uma linha torta –– enquanto no computador ela sai perfeitamente reta, em ângulos exatos de 90° ––, logo, não faço. Incerteza se estou acertando a perspectiva, traço e composição de cores –– questões não de projeto, mas de representação –, logo, não faço.
Nesse sentido, como discorrer sobre o porquê de as pessoas não estarem desenhando mais à mão livre? Podem ser citados diversos fatores: mais tecnologia disponível, maior necessidade de ter um produto digital pronto ou até mesmo a ansiedade da comparação. Esse último percebo cotidianamente em sala de aula. A maior insegurança percebida é “eu não sei desenhar” ou “eu não sei desenhar igual a tal pessoa”. Esses comparativos interrompem o caminho necessário para que a pessoa tente aperfeiçoar a sua técnica ou até mesmo tente usar uma folha e um lápis no seu processo criativo.
Tais interrupções acabam prejudicando a capacidade de observação dos arquitetos, e isso em diversas escalas. Em questão de entender o existente com o desenho: o exercício de parar — in loco — na frente de uma construção, seja qual for o estilo arquitetônico, e desenhar, independentemente de limitações técnicas. Esse momento de “aterrar” e observar é a mais plena leitura que se pode ter do bem construído. Nele, o autor observa um detalhe na janela que nunca tinha percebido, nota que a segunda porta do térreo é um pouco mais alta que a do lado e repara em uma pequena vegetação que está nascendo no telhado. Esses momentos são essenciais para desenvolver a sensibilidade de percepção — grande habilidade do projetar — do que ali se passou ou ao que ainda se vivencia.
Já na leitura da realidade e no projeto do futuro, o treino em escalas de uma quadra, bairro ou cidade acaba sendo muito mais fluido no papel. Ensaiar como desenhar os eixos viários centrais de uma cidade, eixos de adensamento, novos parcelamentos e reordenamentos. Todas essas atividades, que demandam muita leitura e processo criativo, necessitam de uma ferramenta que consiga acompanhar o nosso cérebro em uma frequência 1:1, que é a do lápis. O mouse oferece sempre uma resposta mais lenta e pouco compatível com as etapas iniciais do projeto — quando ainda não é necessário um produto definitivo, vetorial e digital.
O caminho para se aproximar do lápis é começar; fazer do exercício do desenho à mão algo natural. Acredite, com a prática, isso poupa horas de desenvolvimento de projeto e até possibilita resultados melhores — isso porque consegue-se assim mais tempo para observar, refazer e melhorar. Sem medo. Pois, como já nos ensinava Jaime Lerner: “Para fazer algo, há que se ter um certo compromisso com a imperfeição”.
Por Guilherme Toledo, arquiteto na JLAA e professor de Sketch Urbano em Cursos de Curta Duração na PUC-PR.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.