Caminhando por Manhattan, na última semana, me chamou a atenção como edifícios tão diferentes parecem pertencer ao mesmo lugar. Entre arranha-céus escalonados dos anos 1920 e 1930, aos prismas de vidro da segunda metade do século passado e às novas torres esbeltas, há uma continuidade que acompanha quem percorre suas ruas.
Olhando para cima, pensei no que reconhecemos como a forma de um arranha-céu. A base que ocupa o terreno, o corpo que se eleva, os recuos que abrem espaço para o céu, o coroamento que passa a fazer parte da paisagem. Em muitos daqueles edifícios, essas partes parecem encontrar uma proporção própria, coerente com o lugar. Seria essa a morfologia perfeita de um arranha-céu?
Essa impressão também depende dos edifícios mais baixos. Eles compõem as quadras, dão sequência às fachadas e ajudam a perceber a escala das torres. A cada esquina, a paisagem muda, mas seguimos reconhecendo Manhattan. O arranha-céu participa desse conjunto mesmo quando se destaca muito acima dele.
Rem Koolhaas interpreta Manhattan como um laboratório da cultura da congestão. A regularidade da malha estabelece uma estrutura dentro da qual cada quadra pode abrigar experiências diferentes. A disciplina das ruas convive com a liberdade de construir em três dimensões. Caminhando pela ilha, impressiona como tantas experiências parecem pertencer a uma mesma história.
Parte dessa história está nas regras que ajudaram a desenhar a cidade. Sobre a malha estabelecida em 1811, o zoneamento de 1916 introduziu uma maneira de organizar o crescimento em altura. Conforme subiam, os edifícios precisavam recuar, em uma relação com a largura das ruas. Torres poderiam continuar crescendo sobre uma parcela menor do terreno.
Essas condições deram origem aos volumes escalonados tão associados a Nova York. Nos desenhos de Hugh Ferris, os limites do envelope permitido ganhavam expressão arquitetônica. As regras ajudavam a definir uma imagem do arranha-céu que atravessaria gerações.
Mas a legislação explica apenas parte dessa construção. Carol Willis mostra como a forma dos arranha-céus também responde ao valor da terra, à rentabilidade e às condições de produção imobiliária. Aquela morfologia foi sendo construída no encontro entre regras, mercado e arquitetura.
O zoneamento mudou profundamente em 1961 e continuou sendo revisto. Surgiram outras formas de ocupar os lotes e distribuir os volumes. Ainda assim, muitos edifícios recentes parecem encontrar seu lugar nessa cidade. Mesmo as novas torres esbeltas, com proporções tão diferentes das anteriores, acrescentam outra geração à imagem de Manhattan.
O edifício 53W53 traduz bem essa percepção. Sua geometria inclinada interpreta o envelope urbanístico e as exigências estruturais. O volume se estreita à medida que sobe, produzindo uma silhueta singular e, ao mesmo tempo, familiar. Para mim, é um daqueles edifícios que dificilmente poderiam pertencer a outro lugar.
Talvez seja isso que me faça pensar em uma morfologia perfeita. Uma forma capaz de expressar o que esperamos de um arranha-céu e de estabelecer uma relação convincente com a cidade. Essa percepção admite edifícios muito diferentes entre si, construídos em épocas distintas.
Outras cidades também produzem relações assim. Em Manhattan, impressiona como elas se renovam há tantas gerações. A cidade continua experimentando, e a própria imagem do arranha-céu continua sendo construída.
Voltei pensando em quanto nossas regras consideram essas relações. Quando definimos o que pode ser construído em cada terreno, que cidade imaginamos encontrar ao dobrar a esquina?
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.