Ou como fugir da mediocridade espacial
Até meu penúltimo semestre do curso de arquitetura, eu tinha comigo que alguns lugares que eu conhecia eram mais marcantes que outros: as dunas de Cabo Frio, o calçadão de Juiz de Fora, a Esplanada dos Ministérios de Brasília. Eu suspeitava que não eram marcantes só para mim, mas para outras pessoas que os conheciam também, só que eu nunca tinha realmente parado para entender o porquê.
Então eu conheci Maria Elaine Kohlsdorf.
Ela ministrava Configuração Urbana, uma disciplina optativa em que compartilhava sua pesquisa da vida toda: a dimensão topoceptiva (neologismo que significa “percepção do lugar”). Embasada em autores como Camillo Sitte, Kevin Lynch, Gordon Cullen e Michael Trieb, seu método de análise trazia a forma como meio de aprendizado dos lugares: eu sei que estou em Salvador não porque leio uma placa onde está escrito “Você está em Salvador”, mas porque a forma da cidade me diz que aquela só pode ser Salvador, e nenhuma outra.
Multiplique isso para bairros, ruas, edifícios! Uma outra dimensão da cidade entrou no meu radar: aquela que você percebe ao percorrê-la, aquela que lhe informa onde você está e que diz que lugar é esse sem que você precise ver no Google.
Ela me ensinou sobre processos cognitivos, apreensão do espaço, sequências perceptivas, estações, campos visuais. Me ensinou sobre imagem mental e sobre representação geométrica do espaço, para uma análise mais informada. Me ensinou que a forma causa efeitos.
Aprendi que os efeitos topológicos são aqueles que se obtêm a partir da relação do nosso corpo com as envoltórias, e aprendi que nós podemos criar esses efeitos para que as pessoas os percebam, quando percorrerem a cidade. Podemos prever estreitamentos, alargamentos parciais e ampliações, de acordo com a proximidade ou distância das paredes (fachadas dos edifícios, por exemplo) aos nossos corpos. Podemos prever envolvimentos, de acordo com tetos que teremos ou não sobre nossas cabeças, sejam os de uma galeria coberta ou aqueles feitos pelas copas das árvores em uma alameda. Podemos considerar os ascensos e descensos decorrentes do relevo do solo como elementos componentes de uma paisagem que queremos evidenciar e enaltecer.
Aprendi que efeitos perspectivos são aqueles que dependem do nosso campo de visão, e que podemos antecipar os trajetos das pessoas para, neles, criarmos realces, emolduramentos, impedimentos, visuais fechadas, direcionamentos, conexões, mirantes, efeitos em “Y” (meus preferidos). Tudo a partir da manipulação dos elementos constitutivos da forma urbana.
Conheci as leis da Gestalt: unidade, proximidade, fechamento, semelhança, dominância, fundo/figura, e as qualidades semânticas: associatividade, continuidade, contraste, simplicidade, complexidade, clareza, originalidade. Compreendi que era possível decodificar as cenas urbanas, dissecar seus elementos para entender qual seu papel nas composições espaciais com as quais nos deparamos ao andar por aí. Descobri que, com esse conhecimento, podemos criar cenas mais bem-sucedidas, em termos de resgate imagético.
Naquele semestre de 1993, aprendi que a gente pode fazer mais que desenhar ruas, quadras, lotes e definir parâmetros de uso e ocupação do solo, para que a cidade funcione. A gente pode fazer tudo isso com intenção de criar trajetos e lugares inesquecíveis, usando os recursos dessa maravilhosa caixa de ferramentas. Recursos que todas as prefeituras do Brasil estão precisando muito ter em conta.
…
Em tempo: deixo aqui os livros de referência dessa minha mestra tão querida: “A apreensão da forma da cidade”, Maria Elaine Kohlsdorf, 1996 (infelizmente esgotado); e “Ensaio sobre o desempenho morfológico dos lugares”, que escreveu com o saudoso professor Gunter Kohlsdorf, 2017.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.