A força invisível que concentra empresas

19 de fevereiro de 2026

Imagine que você, caro leitor, é um empreendedor prestes a abrir um negócio em São Paulo. Onde você gostaria de estabelecer sua empresa: na Av. Chucri Zaidan, onde o aluguel de uma sala de escritório sairia por cerca de R$ 100 por m², ou na Av. Faria Lima, próximo à Juscelino Kubitschek, onde o aluguel sairia por cerca de R$ 300 por m²?

Apesar do custo três vezes maior, é quase certo que você escolheria a Faria Lima, não é? Afinal, essa é uma região que concentra muitos empregos na cidade, o que significa que vários empresários já tomaram essa mesma decisão.

O fato é que não há mistérios em entender os custos de se abrir um negócio em lugares como a Faria Lima. Mais complexo, porém, é entender por que, mesmo assim, tanta gente escolhe estar lá e por que, consequentemente, a atividade econômica é distribuída de maneira tão desigual nas grandes cidades.

Uma parte dessa explicação tem a ver com as características de cada região: localização, acessibilidade, segurança. Paga-se mais caro por mais qualidade — e, potencialmente, mais lucratividade — da mesma forma que algumas pessoas pagam mais caro por um computador com mais memória ou maior capacidade de processamento.

Mas bairros com alta densidade de empregos também são atrativos justamente porque há muitas pessoas e empresas por lá. A proximidade com outros negócios pode fazer com que empresas sejam mais lucrativas — o que, no jargão dos economistas, é conhecido como “economias de aglomeração”. Entender a magnitude desse fenômeno, bem como suas causas e consequências, é uma tarefa importante que, graças à crescente disponibilidade de dados espaciais, tem recebido cada vez mais atenção.

Essa é justamente uma das vertentes da pesquisa que desenvolvo. Exploro a abertura de grandes edifícios comerciais na cidade de São Paulo entre 2006 e 2013 para investigar o que acontece nas vizinhanças ao redor desses novos empreendimentos em termos de atividade econômica.

Um aspecto central da análise é distinguir dois tipos de forças de aglomeração, que costumam ser tratados de forma conjunta na literatura. 

Alguns tipos de negócio, como restaurantes e barbearias, têm interesse em estar em lugares de grande circulação porque se beneficiam da maior demanda por seus serviços. Por outro lado, empresas em áreas como finanças e tecnologia não dependem da demanda local, mas se tornam mais produtivas ao estarem próximas umas das outras — por exemplo, porque o processo de recrutamento de trabalhadores é facilitado, ou porque essas empresas de alguma forma absorvem conhecimento umas das outras.

Comparando mudanças na atividade econômica de vizinhanças mais ou menos expostas aos novos edifícios, é possível filtrar fatores associados às características fixas de cada região e identificar o efeito causal da aglomeração gerada pela abertura dos prédios. Além disso, ao analisar setores que dependem mais ou menos da demanda local, é possível estimar a importância relativa de cada tipo de aglomeração mencionado acima e calcular um efeito multiplicador — ou seja, medir quanto o crescimento de setores não dependentes da demanda local estimula a expansão de serviços como farmácias, bares e restaurantes. Nesse estudo, estimo que, a cada três novos empregos que surgem em setores como o de tecnologia, um novo emprego é criado em serviços locais.

Qual a relevância desse número? Pense, por exemplo, no crescimento do trabalho remoto que houve a partir da pandemia de Covid-19, em 2020. Muitas pessoas agora trabalham pelo menos alguns dias de casa, fazendo com que a circulação de pessoas nos polos de emprego tenha sido reduzida. Essa redução, por sua vez, se traduz em uma queda na demanda por serviços locais, e o efeito multiplicador nos fornece uma estimativa do impacto negativo nas empresas nesse setor. Em outras palavras: se você for dono de um restaurante, talvez agora valha a pena considerar estar mais perto de onde as pessoas moram, e não de onde elas trabalham.

Thiago Patto é pesquisador de pós-doutorado no FGV Cidades e professor no Insper. Doutor em economia pelo Insper, tem formação em economia pela USP e física pela Unesp. Pesquisa economia urbana e do trabalho, com foco na organização espacial de firmas e trabalhadores.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Fundado em 2023, o FGV Cidades: Centro de Inovação em Políticas Públicas Urbanas conta com uma equipe interdisciplinar de pesquisadores nas áreas de políticas públicas, economia, direito, arquitetura, engenharia e ciência de dados. Sua missão é reduzir as desigualdades de oportunidades espaciais por meio de pesquisas científicas bem como assessorando e capacitando diretamente os entes subnacionais brasileiros para avançarem em tecnologia, regulação e políticas públicas, contribuindo para a construção de cidades mais inclusivas, sustentáveis e prósperas.
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