A beleza importa. E importa para além do apelo de locais “instagramáveis” ou da valorização imobiliária; importa como um elemento vital para a própria engrenagem da vida urbana. Um ambiente urbano esteticamente estimulante, harmônico e bem cuidado contribui ativamente para a saúde mental, elevando o estado geral de felicidade, nutrindo a criatividade e, acima de tudo, fortalecendo o engajamento afetivo do cidadão com o seu lugar.
O oposto disso, infelizmente, é o que temos testemunhado com assustadora frequência. A feiura no espaço urbano não é inofensiva; ela é o sintoma da decadência estampado, a olhos vistos, como um agente permanente e silencioso provocando angústia, tristeza e depressão. Cidades feias produzem cidadãos desengajados, e pessoas que transitam sonâmbulas pelo espaço, sem qualquer pertencimento, sem qualquer vínculo.
Essa relação entre o estético e o espírito humano não é nova. Em “Crepúsculo dos Ídolos“, Friedrich Nietzsche já argumentava que a feiura é, na verdade, um sintoma fisiológico e psicológico de degeneração e exaustão. Para o filósofo, uma sociedade que se encontra em declínio perde a sua capacidade intrínseca de produzir vitalidade, nobreza e beleza. O resultado é a produção de uma arte – e, por extensão, de uma arquitetura – que transmite apenas peso e decadência.
O escritor britânico G.K. Chesterton, em seu livro “Shaw” (1909), cunhou uma daquelas frases que servem de espelho para muitas de nossas metrópoles: “A decadência da sociedade é louvada pelos artistas assim como a decadência de um defunto é louvada pelos vermes”. A degradação, quando normalizada, passa a ser retroalimentada por aqueles que deveriam combatê-la.
É bem verdade que, intelectualmente, a feiura tem seus defensores (que não são, necessariamente, admiradores). Umberto Eco, na “História da Feiura“, defende que o feio não é meramente a ausência do belo, mas uma categoria estética autônoma, imprevisível e, em muitos aspectos, muito mais rica do que a beleza. Eco argumenta que, enquanto os critérios de beleza historicamente buscam seguir regras rígidas e monótonas de proporção e harmonia, a feiura é infinita em suas formas. Para o autor italiano, a feiura pode ser uma transgressão intencional, um ato de provocação consciente.
A explicação é inteligente, mas não se aplica às nossas cidades: uma caminhada pelas ruas, e fica evidente que a nossa feiura urbana não carrega qualquer traço de “transgressão intencional” ou genialidade provocativa. O que temos, ao contrário, não é o feio sublime ou literário; é o feio banal. Uma feiura que nasce, invariavelmente, como o resultado trágico e direto da preguiça, da pressa e de uma pobreza cultural que se expande à velocidade da luz.
Tudo poderia ser feito de forma totalmente diferente, claro. O espaço para o respiro, para o diálogo com a rua e para a gentileza urbana ainda existe, bastaria reivindicá-lo como regra.
Negligenciando a harmonia dos prédios, dos quarteirões, das ruas e das poucas praças que ainda restam, esquecemos que a cidade é o pano de fundo da nossa existência, e um dos suportes (ou agressores) de nossa saúde mental, percepção de felicidade e sensação de pertencimento.
Reivindicar a beleza urbana, portanto, não é um luxo abstrato, pueril; é uma emergência de saúde pública e de sobrevivência do nosso próprio espírito.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.