Sou um grande fã do Raul Juste Lores. Acho admirável sua habilidade de comunicação e sua capacidade de ampliar o debate tão necessário sobre urbanismo e cidades. Gosto, particularmente, da forma como ele provoca a nossa elite financeira ao mostrar que, quando o assunto é arquitetura, dinheiro nem sempre (ou quase nunca) é sinônimo de bom gosto.
Assisti a todos os seus vídeos no canal São Paulo nas Alturas, no YouTube, e apesar da admiração, há momentos em que costumo discordar dele, particularmente quando aponta como um problema o desconhecimento, por parte dos proprietários, da autoria do projeto dos prédios onde vivem. “Pinheiros ganha prédios de 40 andares de autoria desconhecida, com marcas e nomes de bolsa, de carro […], mas que ninguém sabe quem foi o arquiteto”, diz ele em vídeo recente.
Ainda que a crítica à anonimização dos projetos revele um problema real de padronização e baixa qualidade da produção imobiliária, fica a pergunta: a notoriedade dos arquitetos é realmente indispensável para a construção de uma boa cidade? Um bairro repleto de prédios projetados por arquitetos renomados será necessariamente um lugar bom para se viver? Essas são questões que me vieram à mente enquanto lia o excelente “O livro dos labirintos” do arquiteto Francesco Perrota-Bosch.
“Colocar em perspectiva histórica serve para pôr em xeque o individualismo, a identidade e a necessidade de reconhecimento público próprios à noção contemporânea de autor. […] O labirinto é, portanto, uma lembrança ao século XXI de que a autoria, na arquitetura, não é um valor absoluto, nem mesmo obrigatório. O responsável por uma edificação no Quinhentos, Seiscentos ou Setecentos não necessariamente ambicionava um projeto com os traços particulares de sua natureza pessoal, tal como almeja a maioria dos arquitetos dos dias atuais. O valor da arquitetura se dava por uma cultura construtiva e artística compartilhada coletivamente pela sociedade. Não se reconhecia a autoridade de um indivíduo demiúrgico a controlar as ações de concepção e construção de uma edificação – e mesmo assim tais épocas nos proporcionaram inúmeros projetos extraordinários”, escreve o autor.
O que há de melhor no meu bairro, por exemplo, são conjuntos de casas e sobrados geminados sem recuo em relação à calçada (muitos hoje convertidos em comércios atrativos); e os predinhos charmosos de três ou quatro andares com lojas no térreo. São eles, construídos majoritariamente nas décadas de 1950 e 60, que mais contribuem positivamente para a vitalidade das calçadas e para a paisagem urbana, ainda que as autorias, muito provavelmente, sejam desconhecidas.
Essas casas e prédios, hoje, são resquícios do passado convivendo ao lado de edifícios altos e recuados, quando não de quadras quase completamente muradas de enormes condomínios fechados. “Cada edifício nasceu sob um conjunto diferente de regras, incentivos e humores do mercado. O resultado não é diversidade urbana – é uma ambiência quebrada, incoerente, que parece ter sido planejada por um comitê que nunca chegou a se reunir”, como bem escreveu o meu colega colunista Luis Henrique Villanova em artigo no Caos Planejado.
Neste contexto, mesmo prédios de arquitetos renomados soam ensimesmados, incapazes de dialogar com o entorno fragmentado. São lindos em fotos muito bem tiradas, nas quais aparecem isolados do entorno. No cenário ampliado, são apenas um pedaço de uma colcha de retalhos disforme.
Perto de casa, o Edifício Jaraguá do Paulo Mendes da Rocha é um dos poucos do bairro na lista dos residenciais “icônicos” da cidade. “Visto através do Vale do Pinheiro ou do Tiête o grande volume […] se insere na malha urbana de maneira sutil através de sua implantação integradora. O acesso ao lote consiste em uma grande praça com espelho d’agua que se funde ao contexto do entorno. A vitrine horizontal translúcida que corresponde à portaria proporciona uma integração característica do arquiteto através de uma solução formal capaz de garantir o olhar através do edifício”, descreve poeticamente o site da imobiliária Refúgios Urbanos.
Quando ampliamos o cenário, porém, vemos os vizinhos: uma quadra de futebol em um condomínio murado, um poste, fiação exposta, uma casa verde recuada, um prédio alto branco sem graça de janelas pequenas e faixas verticais azuis; do outro lado, prédios mais baixos, caixotes também brancos e azuis, cercados por muros pichados. Empreendimentos pensados lote a lote, isoladamente, resultado de condições de mercado e regras de diferentes momentos, completamente desarticulados entre si.
A qualidade arquitetônica, quando isolada – e a depender da escala –, parece insuficiente para produzir urbanidade. Muito mais do que bons projetos de arquitetos renomados, o que nos falta há décadas é não apenas regras melhores, que levem em consideração a cidade já construída, mas regras que também reflitam e estimulem um projeto coletivo e compartilhado de cidade.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.