Sobre a arquitetura que soma e a que subtrai
Se lhe pedirem uma foto para saber como você é, é bem improvável que você mostre uma foto sua de lado, ou de costas.
Você de frente é você para o mundo.
Sua frente é sua principal interface. Por ela, você se apresenta. Mostra sua alegria, sua tristeza, sua desconfiança, sua comoção. Nela estão seus principais mecanismos de comunicação, suas expressões faciais, seus gestos, e através dela você recebe as informações que lhe chegam do mundo.
Se pedirmos uma foto para saber como é um prédio, a foto mais precisa para mostrá-lo seria a foto de sua fachada.
O verbete fachada, segundo o dicionário Aurélio (sim, ainda tenho um em papel) diz: “Qualquer das faces dum edifício, de modo geral a da frente.”
Denominamos fachada as faces de um prédio. Em um prédio de 4 faces, por exemplo, podemos chamá-las de fachada frontal, fachada lateral direita, fachada lateral esquerda e fachada posterior. Podemos também nomeá-las de acordo com sua orientação: fachada nordeste, fachada sudeste, fachada sudoeste e fachada noroeste.
Mas, como já adiantou o Aurélio, se falarmos apenas fachada, estaremos falando da fachada da frente, a fachada principal: aquela face que está voltada para o mundo. Ele prossegue no verbete: “Fachada principal. Arquit. A que está voltada para o logradouro público”.
O logradouro público, minha gente! A fachada principal é aquela por meio da qual se acessa o edifício, é a que é vista da rua, basicamente. É como o prédio se apresenta para a cidade, e é através da qual quem está em seu interior vê a cidade acontecendo. É a contribuição da arquitetura não apenas para o morador ou usuário, mas para todas as milhares de pessoas que vão passar na frente dela – inclusive o morador ou usuário.
No entanto, é possível ver, em sites especializados, casas e prédios sendo divulgados sem fotos da fachada vista da rua. A fachada que dão a entender como a principal algumas vezes é aquela vista por quem já está dentro do lote, como se o muro não existisse. Outras vezes, é a que se avista desde o fundo ou lado do lote, e que a cidade praticamente nunca vai ver. Isso é um sintoma de que essa arquitetura não faz questão de se apresentar para o mundo (a não ser o mundo dos sites especializados).
É comum ver edifícios e casas com recuos frontais delimitando seus lotes com muros que nos impedem de ver suas fachadas principais. Também é comum ver edifícios e casas sem recuos frontais transformando suas fachadas principais em muros, desprezando a rua, não possuindo uma mísera janela, não oferecendo sequer um retângulo iluminado à noite.
Há uma gama enorme de estratégias para se fazer uma boa interface. Uma que presenteie a rua com um edifício que se volte para o mundo, ao mesmo tempo em que favoreça a privacidade dos residentes e a sensação de segurança de usuários e transeuntes.
A arquitetura que se importa com a cidade resolve bem as interfaces e faz com que a fachada principal de cada novo prédio seja uma adição generosa à paisagem e à vida urbanas. Faz com que haja mais portas, mais janelas, faz com que a rua receba mais luz, mais movimento, mais interesse.
A arquitetura que não se importa com a cidade reserva a fachada principal para uns poucos escolhidos e apenas subtrai. Subtrai portas, subtrai janelas, subtrai a permeabilidade visual, subtrai o diálogo entre o público e o privado, subtrai a sensação de segurança, subtrai o interesse.
Por favor, não façam essa arquitetura.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.