A cidade vista por seus gestos cotidianos

13 de janeiro de 2026

“Pequenas Tentações: Cidades, Arquitetura e Outros Passeios”, de Eduardo Andrade de Carvalho, promove um olhar para aquilo que tantas vezes se perde na pressa do cotidiano: a vida urbana em sua dimensão concreta, sensorial e política. Talvez por não ser arquiteto, sua perspectiva escapa às amarras do discurso técnico e se aproxima da experiência compartilhada por quem vive (n)as cidades, com suas ruas, calçadas, encontros, desconfortos, muros e gestos repetidos que, somados, estruturam o dia a dia. É esse ponto de vista, externo ao ofício mas interno à urbanidade, que dá consistência ao livro.

Reunindo textos publicados ao longo de pouco mais de uma década, a coletânea se organiza entre reflexões sobre cidades, arquitetura e o que o autor chama de “outros passeios” — pela história, pela literatura, pela música e, sobretudo, pelas memórias que atravessam sua relação com os lugares. Ainda que dispostos em blocos, os ensaios se articulam com fluidez, confirmando o que Fernando Serapião aponta no prefácio ao identificar o “espírito urbano” da obra: a capacidade de transformar situações comuns — uma esquina, uma padaria, um percurso cotidiano — em sínteses de processos mais amplos que moldam a vida coletiva. Ao longo dos textos, Carvalho demonstra que a experiência urbana se constrói por ações discretas, rotineiras e muitas vezes invisíveis, porém estruturalmente decisivas.

Mesmo escritos há mais de dez anos, os primeiros artigos dialogam diretamente com debates recentes. Em diversas passagens, o autor ecoa o olhar histórico-prospectivo de Ben Wilson em “Metrópole” e a defesa da proximidade urbana, presente em “A Cidade de 15 Minutos”, de Carlos Moreno, já discutidos neste espaço. Se o futuro da população global é urbano, a distância sistemática entre moradia, serviços, lazer e espaços públicos impõe um desgaste contínuo — e a mobilidade cotidiana torna-se exaustiva. Aproximar pessoas de seus destinos diários, argumenta Carvalho, não deveria ser apenas uma escolha de planejamento, mas uma condição básica de vida urbana.

Entre os elementos recorrentes do livro, as calçadas ocupam um lugar central. Para o autor, elas não são simples superfícies e sim suportes de convivência, onde civilidade, segurança e sociabilidade se materializam. Sua crítica aos condomínios-clube e aos muros é igualmente objetiva: mais do que uma questão estética, trata-se de uma lógica rígida de separação que empobrece o espaço público e reduz a espontaneidade dos encontros. Quanto mais enfática a divisão entre público e privado, menor a capacidade da cidade de absorver diferenças; quanto mais sutis e permeáveis as transições, mais a urbanidade se afirma.

Nos textos dedicados à arquitetura, Carvalho ressalta como, apesar do impacto direto na qualidade de vida, o tema aparece de forma irregular no debate público, frequentemente reduzido à imagem ou à autoria. Aceitam-se, sem reflexão, ambientes mal resolvidos, fachadas indiferentes ao pedestre e projetos orientados ao automóvel. Ao mesmo tempo, o autor insiste que boa arquitetura não precisa ser onerosa: depende de adequação à escala humana, de inteligência no uso do espaço e de relação qualificada com o entorno. A funcionalidade é apenas o ponto de partida; edifícios e espaços devem também sustentar fruição, curiosidade e cuidado, em diálogo com referências clássicas como Jane Jacobs e Jan Gehl.

Na seção final, “Outros passeios”, a coletânea amplia seu alcance ao tratar de escritores, músicas, conversas e lembranças, reafirmando que falar de cidade é, em última instância, falar de vida. As “pequenas tentações” são essas experiências mínimas — prestar atenção às pessoas numa praça, encontrar alguém ao acaso, permanecer em silêncio — que, embora aparentemente inúteis, constituem os verdadeiros prazeres do cotidiano. A partir de situações concretas, Carvalho articula crítica e observação de maneira acessível e consistente, sublinhando que a urbanidade não é uma abstração; ela se manifesta nos modos de caminhar, nos limites construídos e na qualidade dos espaços compartilhados.

Heloisa Loureiro Escudeiro é coordenadora-adjunta do Núcleo Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper. 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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