A cidade que prefere o vazio

28 de janeiro de 2026

Toda cidade sazonal repete o mesmo roteiro. No verão, colapso. No resto do ano, silêncio. Trânsito saturado, serviços sobrecarregados, infraestrutura no limite. Passado o pico, ruas vazias, equipamentos subutilizados e uma economia que desacelera abruptamente. O curioso é que esse fenômeno é previsível, recorrente e amplamente conhecido. Ainda assim, segue sendo tratado como exceção. 

Isso acontece porque a cidade sazonal não é um acidente. Ela é resultado direto de escolhas. E, sobretudo, da decisão de não enfrentar uma discussão incômoda: como o espaço urbano é regulado para estimular ou evitar a permanência. 

Falar de permanência significa falar de densidade cotidiana, tipologias habitacionais, mistura de usos, relação dos edifícios com a rua, térreos ativos, acesso a serviços, transporte diário e uso contínuo da infraestrutura já instalada. Em outras palavras, discutir como a cidade funciona todos os dias e não apenas quando está cheia. 

Nesse contexto, o incômodo não está na verticalização em si, mas no uso que ela pode sustentar. Em cidades marcadas pela sazonalidade, edifícios altos vazios tendem a ser mais aceitáveis do que edifícios altos ocupados de forma permanente. A verticalização deixa de incomodar quando não traz gente junto. O conflito surge quando o edifício passa a viabilizar ocupação contínua e presença cotidiana de moradores. Isoladamente, a altura não produz esse efeito. É possível ter edifícios altos e, ainda assim, uma cidade vazia fora da temporada. A escolha que se coloca é clara: aceitar torres vazias ou enfrentar o desafio de uma cidade cheia o ano inteiro.

O problema é que muitas cidades preferem o usuário temporário ao morador permanente. O visitante consome, mas não cobra. Não exige mais escolas, não pressiona o sistema de saúde, não disputa o transporte diário nem tensiona o debate político local. A permanência, ao contrário, traz demandas reais, previsíveis e contínuas. E é justamente isso que incomoda. 

Há ainda um paradoxo pouco debatido. A moradia sazonal contribui de forma contínua para os cofres públicos ao longo de todo o ano, pagando impostos, taxas e tributos mesmo quando seus ocupantes não estão na cidade. Trata-se de um modelo que arrecada sem consumir diretamente a infraestrutura urbana. Ainda assim, esse modelo reforça uma cidade que funciona por picos, com serviços ociosos durante meses e sobrecarregados em poucos períodos, evitando enfrentar o debate sobre como sustentar o uso permanente do território. 

Essa rejeição raramente é explícita. Ela aparece diluída em regras urbanas, custos indiretos e modelos imobiliários que favorecem o uso temporário. Não se proíbe morar. Apenas se torna cada vez mais difícil produzir moradia permanente em termos de tipologia, preço, localização e uso cotidiano da cidade. 

Quando essa discussão é evitada, o debate tende a se deslocar para o que é mais fácil de apontar. O edifício passa a concentrar críticas, e a altura surge como explicação simplificada para problemas que antecedem a própria forma construída. O foco recai sobre o que aparece, enquanto as escolhas estruturais permanecem fora do centro da conversa.

Enquanto a moradia permanente seguir sendo tratada como um risco, e não como a base do funcionamento urbano, a cidade continuará alternando excesso e vazio. E seguirá evitando discutir não o quanto cresce, mas para quem e para quando é planejada.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Mestre em Arquitetura e Urbanismo (UniRitter/Mackenzie) e Doutor em Arquitetura (UFRGS). Membro do Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) e líder do CTBUH Brazil Chapter. ([email protected])
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