As cidades brasileiras têm um sistema imunológico invertido. E estão morrendo lentamente por isso.
Explico: você abre o orçamento municipal, e descobre que a lógica de aplicação de recursos segue uma regra bem simples: calcula-se em cima das “coisas” já sob administração, não em cima dos objetivos determinados ou dos resultados pretendidos. Ruas, praças, canteiros, asfalto, sinalização, tudo dividido por área, por quantidade de infraestrutura, por metros quadrados sob responsabilidade municipal. Custo do ano anterior, mais correção. Manutenção e mais uma casquinha para investimentos que não sejam obras viárias. Pronto, orçamento feito.
Dois bairros, um deles central, denso, com uso misto intenso. Tem apartamentos, lojas, escritórios, bares, pessoas circulando 24 horas. A rua vive. O outro é filho de expansão urbana desenfreada. Loteamentos medíocres sem projeto urbano. Quarteirões salpicados de casas, cada uma com apenas uma família, e cercados de muros. Ou pior, ao invés de quarteirões, quadras enormes com até 300 metros de extensão, ocupadas por projetos habitacionais brutais, múltiplos edifícios sem qualidade, sem térreo vivo, sem comércio, soviético. Um “não-lugar”, pouco mais do que um depósito de gente afastada da cidade, criada para ser invisível, naquele vai e vem diário entre periferia e cidade.
Mas, se ambos têm aproximadamente a mesma quantidade de metros quadrados de rua e mais ou menos a mesma estrutura viária, então esse ”não-lugar” recebe, proporcionalmente, muito mais reais por metro quadrado de rua do que um bairro central. Pior, normalmente destinado ao sistema viário, raramente ao lazer e à infraestrutura de segurança, educação e saúde. Os recursos do orçamento vêm para manter esse “não-lugar” como uma cidade dormitório, não para transformar num local habitável, seguro, completo.
Pense bem nisso. A cidade está pagando mais para manter um lugar vazio e mal construído do que para manter um lugar cheio de gente e pulsante. É como um hospital que gasta mais recursos com cadeiras de espera, sinalização e panfletos informativos do que com equipamentos de saúde, salas de cirurgia e com os próprios tratamentos.
Quer saber se o bairro funciona? É fácil, basta medir a quantidade de motocicletas saindo para a cidade de manhã, e retornando à noite. A cidade financia a dispersão enquanto sufoca o núcleo.
E aqui vem a questão que importa: e se, talvez, quem sabe, ao invés de alocar recursos olhando para as “coisas”, a prefeitura analisasse em detalhe as demandas e possibilidades de cada bairro? Não de gabinete. Não “de cima”. Mas formando comitês locais (e desvinculados de partidos políticos), ouvindo de verdade a população onde ela realmente está.
Porque, no final do dia, somente quem mora pode relatar os problemas reais, diários, aquilo que falta, o que aflige para cada bairro. E, ao invés de gerir respondendo à infraestrutura, uma gestão a partir das demandas reais, precisas, do “tamanho” certo. Ao invés de “coisas”, necessidades. Comitês locais colhendo o que cada bairro precisa, com reuniões constantes, participação real, para ouvir. E a prefeitura, então, passando a trabalhar a visão de futuro, os investimentos transformadores, os planos estratégicos, regenerando, recuperando, amplificando.
Não é democracia de balcão; é um modelo de escuta real, apolitica, por quem entende que a cidade é um organismo que respira, e que se você quer que ele respire bem, precisa escutar quem vive dentro dele.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.