A cidade mais verticalizada do Brasil

17 de junho de 2026

Recentemente participei do Santos 500+, iniciativa do Grupo Tribuna que reuniu diferentes setores da sociedade santista para discutir os caminhos da cidade para as próximas décadas. A proposta foi pensar como Santos chegará aos seus 500 anos.

Ao longo das apresentações, um dado chamou minha atenção. Santos possui a maior proporção (63,45%) de moradores vivendo em apartamentos no Brasil. Em outras palavras, estamos falando da cidade mais verticalizada do país.

Essa constatação, porém, esconde uma característica pouco percebida da cidade.

Quando pensamos na verticalização santista, normalmente imaginamos a sequência de edifícios ao longo da orla. No entanto, grande parte dessa verticalização não foi construída pelas edificações mais altas, mas pelos tradicionais “predinhos” espalhados por diversos bairros da cidade. 

Foram eles que ajudaram a consolidar, de certa forma, uma cidade compacta e densamente ocupada. As condicionantes geográficas de Santos fizeram com que a verticalização deixasse de ser apenas uma opção de mercado para se tornar parte da própria estrutura urbana da cidade. Com a maior parte da população concentrada na área insular, o crescimento urbano ocorreu predominantemente através da intensificação da ocupação existente, e não pela expansão do território urbanizado. 

Mas a cidade vive agora uma nova fase. 

Os edifícios mais altos de sua história estão sendo construídos neste momento. Empreendimentos que ultrapassam os 100 metros de altura começam a alterar um skyline que durante décadas foi marcado predominantemente por edifícios de média altura. A cidade dos predinhos não está desaparecendo. Ela passa a incorporar também uma nova geração de edifícios altos. 

Naturalmente, essa transformação vem acompanhada de questionamentos. Mobilidade, infraestrutura, crescimento populacional e qualidade urbana aparecem entre as principais preocupações. Os mapas apresentados mostravam onde a população cresce, onde se concentram os novos domicílios e como esses movimentos impactam os deslocamentos da cidade e da região metropolitana. 

Outro aspecto interessante é que a discussão não está restrita à quantidade de edifícios que podem ser construídos. Parte do debate passa pela forma como esses edifícios se relacionam com a cidade. Novas diretrizes urbanísticas buscam incentivar áreas de integração, fachadas ativas e espaços mais conectados à vida urbana. 

Os estudos ambientais apresentados também ajudam a relativizar algumas interpretações simplistas sobre a verticalização. Os mapas de ilhas de calor mostram que as áreas mais quentes da cidade não coincidem necessariamente com as áreas de maior concentração de edifícios altos, indicando que fatores como arborização, impermeabilização e desenho urbano possuem papel igualmente relevante. 

Outro tema recorrente foi o futuro do Centro. Em uma cidade que historicamente concentrou boa parte do desenvolvimento em direção à orla, a região central volta a aparecer como oportunidade para novos investimentos, moradia e requalificação urbana. 

Ao final do evento, fiquei com a impressão de que Santos oferece uma experiência interessante para o debate urbano brasileiro. Tornou-se uma das cidades mais verticalizadas do país sem depender exclusivamente de arranha-céus. Agora, justamente quando passa a construir os edifícios mais altos de sua história, discute como transformar esse novo ciclo em qualidade urbana. 

Talvez essa seja a principal questão para os próximos 20 anos: não apenas quantos andares os edifícios terão, mas qual cidade surgirá a partir deles. 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Mestre em Arquitetura e Urbanismo (UniRitter/Mackenzie) e Doutor em Arquitetura (UFRGS). Membro do Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) e líder do CTBUH Brazil Chapter. ([email protected])
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