A cidade entre a brecha e a placa 

7 de abril de 2026

Meu primeiro contato com  o livro “Desenhando a desordem” foi um tropeço semântico: não se desenha a desordem; desenha-se para a desordem — deixando a forma em aberto para que novos usos, pessoas e peças se encaixem. O original (Designing Disorder) indica intenção e método. O uso do artigo definido obscurece a mensagem e cria um ruído desnecessário: parece que o livro celebra o caos, quando na verdade tenta defender uma abertura deliberada.  

A obra, de Richard Sennett e Pablo Sendra, insiste numa tese: a convivência pede espaços menos fechados, menos programados, mais capazes de admitir lacunas, sobreposições e apropriações. É uma atualização do Sennett de “The Uses of Disorder” (1970): crítica ao modernismo funcionalista, ao carrocentrismo e à burocracia que organiza a vida como linha reta — uma ordem que promete eficiência e entrega empobrecimento do cotidiano. Sendra puxa a reflexão para o chão do projeto: infraestrutura, limiares, vazios e passagens como suportes de usos coletivos não previstos. O livro repete esse ponto à exaustão, mas acerta ao recolocar o inacabado como valor urbano.  

Em minha compreensão: a cidade aberta só se sustenta quando o desenho cria brechas e a política pública sustenta essas brechas com governança, cuidado e mediação; do contrário, a abertura vira vulnerabilidade — e a vulnerabilidade vira fechamento. A cidade aberta não é só forma: é pacto.  

Fortaleza oferece um caso didático. O Dragão do Mar, concebido como arquitetura tropical porosa (Fausto Nilo e Delberg Ponce de Leon), produziu um uso não planejado sob o planetário: um vazio de passagem virou arena de hip hop e danças urbanas — eco, piso liso, encontro de jovens até tarde. A tese da obra em estado puro: o desenho abre, a vida completa. No entanto, o tempo também mostrou o limite: violência no entorno, população em situação de rua e medo empurraram o equipamento para grades, segurança privada e horários determinados. O que era atravessamento vira controle; o que era porosidade vira triagem. A cidade aberta passa a ser administrada como shopping, revelando uma incapacidade institucional de sustentar a abertura sem puni-la.  

Com exemplos majoritariamente europeus, a abertura aparece como virtude projetual administrável. Em cidades desiguais, ela tem custo: ou se governa, ou se fecha. A diferença entre o ideal e a realidade não é apenas técnica: é política, social e orçamentária.  

A Covid reensinou o sentido de exposição: muitas vezes, o risco estava dentro, confinado, sem circulação de ar. Clima e pandemia reforçam a demanda por flexibilidade — todavia também por gestão de risco. A estética da incerteza só é defensável quando não romantiza dano. Cidade-esponja é um bom exemplo: aceitar a água como parte do sistema não significa aceitar desastre; significa planejar absorção, infiltração, redundância. Abrir não é largar, mas desenhar e governar para o imprevisível.  

Em Cambridge, ao lado do Charles Hotel, um desnível perfeito para a street skate traz a placa: “NO SKATEBOARDING ALLOWED. Police take notice” (proibição para andar de skate). A poucos metros, o livro de Sennett e Sendra à venda na Harvard Book Store. A cidade aberta como ideia; a cidade fechada como prática. Uma placa basta para mostrar como a abertura morre em microproibições: bordas, bancos, escadas, cantos. O discurso celebra a convivência; o território gerencia prestígio e risco com interdição.  

Se eu rebatizasse a edição brasileira, seria “Desenhando para a desordem”. E acrescentaria a linha que o mundo real exige: desenhar para a desordem — com responsabilidade pelo risco e governança para a abertura.  

Élcio Batista
Coordenador do Programa Cidade +2°C do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper (Insper Cidades) 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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