Há um dado silencioso redesenhando as cidades brasileiras: estamos vivendo cada vez mais sozinhos. Não no sentido existencial — embora ele também apareça —, mas de forma concreta, doméstica. O número de domicílios com apenas um morador cresce de forma consistente em praticamente todas as capitais do país desde 2016. Porto Alegre, Salvador e Goiânia lideram, mas o fenômeno é nacional.
É tentador ler isso apenas como um sintoma social — individualismo, envelhecimento, novas formas de família. Tudo isso está presente. Mas, para quem pensa cidade, a questão é outra: estamos projetando espaços para uma vida que já mudou?
A maior parte dos nossos empreendimentos ainda parte de um modelo doméstico tradicional: famílias nucleares, rotinas previsíveis, uso intensivo da unidade privada. Mesmo quando os apartamentos diminuem, a lógica permanece. O morador sozinho aparece como exceção, não como regra crescente.
Mas morar só não é apenas uma mudança de configuração familiar — é uma mudança de relação com a cidade. Quem vive sozinho tende a externalizar mais a vida: trabalha fora, encontra mais, consome serviços, usa a rua. A casa deixa de ser o centro absoluto e passa a ser um ponto de apoio.
Isso tem implicações diretas para o desenho urbano e imobiliário. Primeiro, na escala da unidade: plantas mais eficientes, flexíveis, menos compartimentadas, com espaços que acomodem diferentes usos ao longo do dia. Depois, na escala do edifício: áreas comuns deixam de ser “amenidades” e passam a ser extensões reais da casa — lugares de permanência, não apenas de passagem.
Mas é na escala da cidade que a mudança se revela mais potente. Uma cidade com mais pessoas morando sozinhas precisa ser mais caminhável, mais segura, mais ativa. Precisa oferecer o que a casa já não concentra: convivência, serviços, diversidade de usos. O oposto disso — bairros monofuncionais, dependentes do carro, com ruas vazias — torna a experiência de morar só mais pobre e, muitas vezes, mais solitária do que deveria ser.
Há também um ponto menos evidente: morar sozinho não é sinônimo de isolamento. Em muitos casos, é justamente o contrário — uma escolha por autonomia, por uma vida mais aberta, mais conectada com o entorno. A arquitetura e o urbanismo podem potencializar isso ou sufocá-lo.
Talvez o dado mais interessante não seja quais cidades têm mais moradores solitários, mas o que essas cidades estão fazendo com essa informação. Continuar projetando para um modelo que perde centralidade é, no limite, produzir obsolescência.
As cidades brasileiras estão mudando por dentro, porta a porta. Cabe a nós decidir se vamos apenas medir essa transformação — ou desenhá-la.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.